A verdadeira vida abandonada

Doar a vida por Cristo é intrínseco ao ser cristão, assim como é parte de nosso ideal não tentar salvar-la por si mesma, se não pelo Evangelho. Porém isso nos pode parecer contraditório na medida em que tomamos o caminho de cruz e sofrimento que nos leva ao martírio.

Ao falar da vida, não a limitemos tão somente ao ciclo entre o nascimento e a morte, marcada por eventos fisiologicos. Doar a vida por amor de Cristo não se trata apenas de entregar o corpo físico, o caminhar, o respirar, o comer e todas as outras coisas cotidianas que a vida exige. Esta entrega vai além dessa ideia de vida fisiológica, abrange também o próprio ser do homem, com suas limitações e virtudes. Mais que doar a vida, entregando-se até a morte, é doar-se. Entregar-se por inteiro ao Cristo para então ganhar-la.

Mas onde está o sentido de perder-se para encontrar-se? De doar-se para então possuir-se?

Recordemos a criação do homem, feito imagem e semelhança de Deus, não imagem moral, mas natural, e com todos as propriedades de ser humano. O tipo do qual fomos criados é o próprio Verbo de Deus, antes mesmo de sua Encarnação. O homem é obra das mãos de um artista que olhando para si mesmo em um espelho, cria sua arte.

Nesse sentido, e somente nesse sentido, somos como uma escultura autobiográfica do Verbo. Distinta de uma arte inanimada, capaz de ver o próprio artista e imitá-lo para alcançar algum grau de maior semelhança entre arte e Artista.

O Verbo Encarnado se apresenta como o tipo religioso e moral, na qual o modelo natural pode adequar-se doando-se a Ele. Assim a arte autobiográfica se torna quase como um outro artista, descobrindo-se em seu verdadeiro fim.

Se a arte autobiográfica encontra seu sentido somente quando atrelada ao artista, não doar-se é perder-se de si.

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