
Para o louvor e glória da Santissima Trindade.
João 13, 1-15
Aqueles que se amam, se reunem para compartir a companhia e a comida, juntos sobre a mesa. Amizades e grandes amores começam em uma ceia, como começa também o Mistério Pascual, grande favor de Deus para todas as pessoas.
Toda familia humana está chamada a preservar a santidade e o bem estar ao sentar-se a mesa com seus cônjuges, ou com seus filhos, afinal este é o lugar de amor do lar. O matrimônio pode ter seu espaço preservado para amar, o sacerdote tem a mesa do sacrificio, os filhos se dedicam ao estudo, mas todos, de qualquer vocação, se reunem para desfrutar o banquete que alimenta e une pessoas. O amor é e deve ser a motivação central para que todos possam se reunir à mesa.
Cristo, ao se dar conta de que chegava o momento de sua paixão, decidiu comemorar antecipadamente o Seder (jantar ritualístico que marca o inicio das festa pascual), conforme os costumes judeus, para estar com aqueles que ele amava, sem embargo, este amor ultrapassa o espaço e o tempo. Junto dele estavam seus discipulos, comemorando o princípio de uma nova relação entre Deus e a humanidade. O Pão oferecido nesta Última Ceia de Jesus é exatamente o mesmo Pão da Vida que alimenta a todos os fieis do mundo inteiro. Ao celebrarmos a Eucaristia, estamos juntos, sentados sobre a mesa do banquete, unidos pelo amor que une Jesus aos seus discipulos, pais a filhos e irmãos a irmãos.
A Igreja é o lugar em que este banquete se extende a cada um de nós, pela tradição apostólica e pela caridade, conforme a mesmissima vontade divina. O amor de Cristo se deu em sua entrega, até o final na cruz, mas também se dá a todos os homens até o fim dos tempos.
A este amor se refere João Crisóstomo, com as seguintes palavras “Não é que (Jesus) antes não soubesse, mas desde antes. O trânsito é a sua morte. Quando teve que abandonar os seus discípulos, mostrou-lhes um amor superior. E assim diz: Tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim; isto é, ele não deixou de praticar nenhuma daquelas coisas que quem ama muito deve fazer. Ele não fez todas essas coisas desde o início, mas para aumentar a familiaridade e preparar o conforto para as coisas que aconteceriam mais tarde, acrescentou maiores demonstrações de amor. Ele os chama aqui de seus por causa da familiaridade, porque por causa de sua condição ele também chama os outros de seus. Assim, quando diz (Jo 1,11): “E os seus não o receberam”. Acrescenta ainda “que estavam no mundo”, porque havia outros dos seus mortos (Abraão, Isaque e Jacó), que não estavam no mundo. Ele amou aqueles que estavam no mundo continuamente e, finalmente, amou-os com perfeito afeto.“
Por se tratar de um amor divino, não pode ser um sentimento passageiro, limitado no tempo, mas deve ser eterno, como é Deus. Nos exorta Santo Agostinho, “Não se entenda que este amor termina na morte dAquele que não termina com a morte”.
Outra caracteristica própria do amor, que nos ensina Jesus nessa Última Ceia é o serviço a aqueles a quem se ama. Todo amante tende a servir com prazer a quem ama, mas nunca o vê como um serviço, se não como um gesto livre de amor, sem peso, sem carga. O amante serve para que o amado se sinta mais amado.
Os pais não temerão servir aos seus filhos, da mesma maneira que filhos se alegrarão em servir aos pais. Os noivos são a melhor prova de prazer deste serviço. O fazem livre e bobamente, presenteiam, acariciam, beijam e entregam flores como prova deste serviço. Servir é firmar diariamente o compromisso.
Jesus ao servir a seus discipulos , confirma que os ama, ao lavar seus pés, mostra que seu amor não é rompido pelas imundicies humanas. O pé é a parte mais suja do homem e é também o lugar onde o homem melhor se afirma. A terra se une a si mesma. Adam, no hebraico dam, formado da terra, toca a adamá (terra). Jesus lava não somente os pés dos seus discipulos, mas o purifica pelas águas do batismo, não uma parte do corpo, mas limpa o homem por completo da sujeira do pecado.
O Lava pés é prova de amor de Cristo para com toda a humanidade, assim ensina que os discipulos devem servir aos homens, pois o único modo de atrair a todos para si, é pela purificacação do batismo. Quem ama, quer estar com o amado, mas como é impossível que na eternidade haja impureza, Cristo limpa os pés de todas as pessoas para que possam gozar da sua companhia.
Quem ama é humilde, porque necessita rebaixar-se ao amado. Cristo se inclina para servir também na Eucaristia. Aquele que é verdadeiro Deus, se faz presente no Pão da Eucaristia, para dar-nos alimento de Vida Eterna.
Êxodo 12, 1-8, 11-14
A Instituição da Eucaristia nas vésperas da Páscua é uma memória da passagem pelo Mar Vermelho e uma ressignificação de festas comuns entre os hebreus e cananeus. A páscoa pré-israelita era uma festa anual dos pastores nômadas, celebradas para a proteção do rebanho. As festas dos pães ázimos, porém, era antes uma celebração agrícola de Canaan. A união destes dois ritos se deu somente com o rei Josias (siglo VII a.C.). Seu significado também pode varias de acordo com a tradução, segundo Santo Agostinho.
“Páscoa não é, como alguns acreditam, um nome grego, mas hebraico. E muito oportunamente há, em ambas as línguas, em relação a esta palavra, uma certa coincidência de significado, porque em grego paschein significa sofrer, e portanto Pascua significa paixão, derivando este nome desse verbo. E na língua deles, ou seja, o hebraico, a peshah é passagem, porque os judeus a celebraram pela primeira vez quando, tendo saído do Egito, cruzaram o Mar Vermelho”.
Esta passagem, porém, não se deu antes do sacrificio do cordeiro, o qual a liturgia católica celebra na Sexta-feira Santa e a Instituição da Eucaristia, celebrada nessa noite da Ceia do Senhor.
O versiculo 9 do capitulo 12 de Êxodo orienta o povo de Deus a comer pão ázimo, ou seja, sem fermento, para que haja tempo de celebrar, para então fugir dos egipcios, depois da última praga que dizimou os primogênitos do Egito. O versiculo 11, diz que a cena pascual debe ser comida já com os pés calçados e o bastão nas mãos, prontos para fugir. Neste relato encontramos a explicação para a maneira em que nós cristãos comungamos. Porque o povo de Deus, com pressa, comemorou a primeira páscoa, com pães sem fermentos, nós cristãos, o Novo Povo de Deus, comemos deste Pão Eucaristico, sem fermento.
Salmo 116
“O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”
Por seu grande amor para conosco, nós o Povo de Deus, cantamos hinos de louvor pela libertação que a nós foi concedida, pois antes éramos prisioneiros do pecado, privados da graça de Deus, mas agora somos renovados pela nova e eterna Aliança que Deus pactou com cada um de nós.
Ao ver-nos sofrendo a escravidão, libertou-nos para a eternidade, por meio de seu Filho único, o Cordeiro sem mancha, sacrificado na Sexta-feira Santa, para a purificação de todas as pessoas.
Primeira Corintios 11, 23-26
Este Sacrificio, porém, não é algo definido em um curto momento da história, mas se refaz a cada eucaristia celebrada, como diz o apóstolo Paulo. O sacrifico será “até que Ele venha”.
Fazemos das palavras de Paulo, o rito da consagração eucaristica, pois assim como não estava presente no momento da Ceia do Senhor, a ele lhe foi relatado por meio dos discipulos, de modo que o mesmo relato da Última Ceia chegasse a cada um de nós e perdure até o fim dos tempos, pois a obra de redenção deve abarcar toda a criação, em todos os tempos.
O Catecismo da Igreja Católica diz que a missa não é mera encenação, mas um verdadeiro sacrificio de Cristo sobre o altar. “O sacrificio de Cristo e o sacrificio da Eucaristia são um único sacrificio” (1367), conforme diz o Concilio de Trento “É uma só e mesma vítima e Aquele que agora se oferece pelo ministerio dos sacerdotes é o mesmo que outrora Se ofereceu a Si mesmo na cruz; só a maneira de oferecer que é diferente”. Na cruz o sacrifico foi cruento, na missa é incruento.
Amemos, pois com mais fervor ao Nosso Senhor e honremos este sacrificio amoroso ofertado a cada um de nós, para que assim possamos servir sempre mais a Deus, à Igreja e aos homens.