
Marcos 11, 1-10
O grande misterio de amor à humanidade se aproxima de sua consumação, que se dá não somente em tempo e em qualidade, mas em quantidade. Sabemos sem dúvida que o Filho de Deus se encarnou em um determinado tempo da história e que o fez porque ama o seu povo e quer salvar-lo. A história da humanidade está relacionada com a encarnação do Verbo, no tempo e o seu amor é qualidade dessa encarnação. Quanto ao que se refere à quantidade, sabemos que o povo se expandiu a partir de um grupo seleto. Foi vontade de Deus relacionar-se com um povo determinado, para que a partir desse povo a graça chegasse aos demais. A escolha por uma nação deixa claro que a relaçao de Deus com o seu povo é verdadeira. Deus realmente quer se comunicar aos homens. Não apenas a uma nação, se não a todas, incluso à aquelas que aparentemente não poderão receber alguma graça, pois a salvação é universal.
Os Padres da Igreja utilizam o evangelho desse Domingo de Ramos para explicar o desejo de Deus de entregar o seu dominio a todos os demais povos da Terra, não somente aos judeus. Porém, esse dominio não consiste em uma opressão, mas em uma constatação de amor. A dominação de Deus sobre o homem é entendida como propriedade sua, a qual ele protege e ama.
O jumentinho desse Evangelho é a figura do não judeu, que ainda não conhecia o dominio do Senhor. Segundo Marcos, Jesus pede a dois de seus discipulos que busquem ao animal que estava amarrado, ou seja, Ele ja tinha o prévio conhecimento da existencia desse animal, assim como ja conhecia o povo não judeu. O jumentinho estava amarrado no meio de uma rua, assim como os não judeus estavam amarrados pelo pecado, no meio de um caminho que poderia lhes conduzir ao bem ou ao mal.
Porém não era um burrinho qualquer, mas um que nunca hava sido montado, ou seja, um jumentinho que não conhecia um dono, por isso era preciso que ele mostrasse o seu poder aos não judeus, para que eles pudessem conhecê-lo e depois seriam livres para decidir o caminho a seguir.
Beda, diz: “O jumentinho, desenfreado e livre, é uma figira do povo das nações, porque ninguém havia montado nele. Tão pouco algum doutor havia posto nele o cabresto da correção para impedir de falar mal, ou para obrigar-lo a entrar no caminho estreito da vida, persuadindo-o ao bem.”
O Pseudo-Jerônimo interpreta o texto de igual modo, dizendo que “encontraram ao jumento amarrado fora, diante de uma porta, porque os gentís estavam sujeito aos laços de seus pecados, diante da porta da fe, ou seja, fora da Igreja”
E Santo Ambrosio diz: “o encontraram amarrado do lado de fora, diante de uma porta, porque o que se encontra fora de Cristo está no caminho, e não está fora aquele que se encontra em Cristo. O encontraram, acrescenta, na entrada de dois caminhos, trânsito para todo o mundo, onde nada tem propiedade, sem presepio, sem comida, sem estábulo. Miserável servidão, sem direito a ser reconhecido, pois aquele que não possui um senhor determinado, possui muitos senhores. Aqueles senhores desconhecidos amarram o jumento para possuir, o dono legitimo desata para ganhar, pois sabe que os beneficios são mais fortes que as cadeias.“
Quanto aos que estavam perto do jumento e permitiram que ele fosse libertado, ao saber que se tratava de um pedido de Jesus, os Santos Padres interpretam como os demônios que reinavam no mundo e tinham o poder sobre os homens, mas ao saber que o Senhor necessitava daquele jumentinho, não podia negar ao pedido do Filho do Homem. O povo que agora conhece ao seu verdadeiro Senhor grita Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor. Deus reina para o seu povo que lhe suplica a salvação. Segundo Beda, a palavra hosana, é um verbo hebreo que se compone de duas partes. Hosi quer dizer salva-me, e anna é uma interjeição que denota súplica. Assim, o povo que antes não conhecia o poder de Deus, o reconhece como seu salvador. Porém ignorava o que lhe sucederia.
Isaias 50, 4-7
Cristo, porém, sabia o que lhe aguardava, como o Servo Sofredor, em seu terceiro cântico reconhece que Deus lhe deu experiência para consolar os corações oprimidos, como Cristo verdadeiramente fez em sua vida, sabendo o sofrimento que lhe passaría, não tratou a ninguém conforme a dor que lhe aguardava, mas com amor baseado naquilo que ele conhecia, ou seja, amava porque veio do Pai, que é amor.
Não se negou a conformar-se com o que estava a sua espera, ao contrário, ofereceu as suas costas para receber os golpes e não virou o rosto para os insultos e as cusparadas. A dignidade e o conhecimento da verdade é a fortaleza dos justos.
Assim como Cristo, o homem que conhece a si mesmo, não desmorona diante das adversidades. Mesmo quando necessita enfrentar humilhações, sobrevive de cabeça erguida, confiante na sua fé e no amor de Deus.
A teologia costuma variar a interpretação dos textos do Servo Sofredor do profeta Isaias entre Cristo e o seu Povo. Para alguns teológos, o texto se trata de uma profecía messiánica, que aponta o futuro sofrimento de Cristo, para outros, no entanto, o relato desse Servo Sofredor é uma figura do Povo de Israel, que sofreu no dominio de outros reis e imperadores, como sofria o jumentinho, sob o julgo de senhores desconhecidos.
Salmo 21
Um segundo problema teológico que encontramos na liturgia de hoje se refere ao Salmo 21, que diz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”
Para muitos teólogos, Jesus estava apenas cantando o salmo conhecido pelos judeus. No entanto, há uma ideia teológica que parece fazer muito sentido, que afirma que Jesus não estava apenas cantando, se não que realmente estava sozinho naquele momento, pois, Deus, sendo a vida, não poderia estar no calvário que é um lugar de morte. Espiritualmente foi necessario, também, que ele estivesse sozinho e se sentisse assim, para que também pudesse carregar o peso da solidão.
O Padre Tanquerey em seu livro, A divinizacao do Sofrimento diz que o sofrimento solitário de Cristo é signo do sofrimento humano, e aponta que é possível viver a solidão, como Jesus viveu.
Filipenses 2,6-11
Cristo experimentou a existencia humana em sua totalidade, exceto no pecado. Todos os sofrimentos humanos foram levados com ele na cruz.
Sendo verdadeiramente Deus não se contentou apenas em estar na eternidade, mas abriu mão de sua glória para viver com a humanidade.
O Deus a qual cremos se rebaixou porque ama tanto a sua criatura que quis estar junto dela e compartilhar as mesmas experiências. Rebaixou-se a máximo possível, para que por Ele, toda a humanidade fosse redimida e elevada a condição divina. Não se fez rei para que ninguém imaginasse que somente a monarquia tivesse o direito de alcançar a glória, tao pouco político ou doutor pelo mesmo motivo, mas se fez o mais humilde de todos, nascido em uma manjedoura, para que todos fossem libertados por ele. E por isso dizemos que “Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai“.