V Dom de Quaresma – Ano B

A salvação não é, de modo algum, prioridade de um povo ou de um grupo específico, mas possibilidade de toda pessoa e certeza daquele que toma a sua cruz e segue a Cristo. 

João 12,20-33

Por meio de Cristo a salvação é oferecida a todos os homens, de todos os lugares, a judeus e a gregos. A clave para entender esse fato é o grande número de relatos em que Jesus se comunica com não judeus.

Sem embargo, há uma dinâmica de mediação entre Deus e homens, para isso nos serve a Igreja e sua estrutura de governo. Neste Evangelho vemos aqueles gregos que pedem a Filipe para conhecer a Jesus, no entanto Filipe combina com André para falar com Jesus. Aqueles que queriam vê-lo poderiam diretamente ir até Cristo, mas preferiram ir aos discípulos, pois sabiam que o seguidor tende a levar ao que segue. Quem verdadeiramente segue a Jesus, não pode apontar a outra coisa, se não ao cristianismo. 

A resposta de Jesus a Filipe e André é “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” e por esta glorificação, a salvação da humanidade que deseja conhecer a Cristo, como desejavam aqueles gregos.

Santo Agostinho nos diz que “Talvez alguém acredite que Ele disse que foi glorificado porque os gentios queriam vê-Lo. Mas não é assim, pois Ele viu que os gentios de todas as nações acreditariam Nele depois de Sua paixão e ressurreição. Portanto, por ocasião desses gentios que desejavam vê-Lo, Ele anunciou a futura plenitude das nações e prometeu que a hora dessa glorificação no céu já havia chegado, após a qual as nações deveriam crer, de acordo com as palavras do profeta (Sl 56:6; 107:6): ‘Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus, e a tua glória acima de toda a terra’. Mas era Sua vontade que a exaltação de Sua glória fosse manifestada de tal forma que fosse precedida pela humildade de Sua paixão. E por isso acrescenta: ‘Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto’. Ele disse de si mesmo que era o grão que deveria esmagar a infidelidade dos judeus, mas que a fé das nações deveria multiplicar.

Sua morte não é um ato histórico infrutífero, é na verdade a semente de salvação que se expande em direção a toda humanidade e em todos os tempos. Apesar de estar marcada em um momento definitivo  da história, os frutos dessa semente morta sobre a terra continua semeando outros terrenos.

A semente não existe para outra coisa que não seja a morte, para dela nascer a vida. Nela não ha instinto de vida, se não de morte. Os homens buscam meios de subsistência, os animais procuram por comida, os vegetais buscam águas por suas raízes. A semente, ao contrário, deseja aniquilarse porque sua glória so faz sentido em sua destruição. Do contrário, a semente que não se rompe é inútil, como é o cristão aprisionado em si mesmo, incapaz de doar-se. O apego exagerado a si mesmo impede qualquer pessoa de ser verdadeiramente humana.

São João Crisóstomo diz: “Aquele que é apegado a sua vida neste mundo realiza seus desejos desordenados, e aquele que resiste às suas más paixões não lhe faz caso. E assim como não podemos nem mesmo suportar a voz ou a presença daqueles que odiamos, devemos afastar nossas paixões quando elas nos induzem a fazer coisas que são contrárias a Deus e, portanto, desagradáveis a Ele.” 

Destas palavras nos surge uma dúvida: “O que o Senhor quer dizer com ‘vida’, se o disfrute de viver é princípio intrínseco ao Evangelho?”  

O termo utilizado por ele é ψυχή, referente ao nephesh hebreo, em português não há uma definição exata para este término, mas é uma referência a parte da vida que os homens possuem igual a todos os demais animais, algo como um mero instinto ou inclinações sem o uso da razão.

Ja no primeiro capítulo da Sagrada Escritura (Gênesis 1,30) podemos encontrar este termo. 

Diz: E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde por alimento”. E assim se fez.

É a esta característica da vida que o homem não deve apegar-se, pois a pessoa que não atua de forma racional, perde, inclusive, sua personalidade.

Neste mesmo versículo (João 12,25) o termo vida aparece por 3 vezes, as duas primeiras vezes significam a mesma coisa, no entanto a última expressão é ζωή (zoe) que significa a vida conforme entendemos, com todas as suas formas. Nela o evangelista diz que se dará a eternidade, ou seja, a salvação do homem é em sua plenitude, todos nos salvaremos por completo se não formos conduzidos por nossas paixões.

Por primera vez, a Escritura faz menção desse término quando se refere ao homem, dizendo: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”  (Gênesis 2,7) e imediatamente dois versículos depois a mesma palavra é referida a Árvore da Vida, perdida por Adão, quando apegado aos seus desejos, desobedeceu a Deus.

Depois deste jogo de palavras, o Senhor apresenta o meio pelo qual se pode ganhar a vida: o seguimento. Seguir a Cristo, é assim como Ele, seguir ao Pai e receberá a mesma glória da ressurreição de Jesus.

O discurso de Jesus segue apresentando a libertação da humanidade, escravizada pelo poder maligno. Por Ele seremos todos salvos.

Jeremias 31, 31-34

Cristo é a nova aliança de Deus para com o seu povo, por ele, a lei escrita em papel é impressa no coração do homem.

A leitura da profecia de Jeremias tem seu sentido espiritual e histórico, nela o profeta apresenta duas consequências deste novo pacto: a eternidade do pacto e a reconstrução do Templo de Jerusalém (cfr Jeremias 31, 30-40).  A lei não precisará ser renovada como foi anteriormente, quando o povo rompeu a aliança com Deus.

A consequência da ruptura deste pacto com Deus, se vê pelo enfraquecimento bélico do povo e depois a escravidão. A profecia indica o fim da submissão do povo por parte dos babilônios, por volta do ano 538 a.C. nesta ocasião, Ciro invade Babilônia e permite que o povo judeu regresse a Jerusalém para construir um novo templo.

Espiritualmente, Deus é quem entrega Jesus, como templo para toda a humanidade, por meio dele todas as pessoas têm acesso ao Deus verdadeiro, sem necessidades de uma mediação da lei, pois Cristo mesmo é a nova lei que firma a relação entre Deus e os homens.

Salmo 50

Criai em mim um coração que seja puro.

Devemos repetir com fervor, para que Deus se lembre sempre de nós, para não cairmos no apego exagerado aos instintos, para que busquemos amar sempre mais o Senhor e fazer o que lhe agrada, não o nosso querer que nos torna escravos, pela desobediência, como fez o Povo de Israel.

Hebreus 5,7-9

Confiemos pois, na obra de redenção realizada por Cristo, não somente pela fé, mas por nossas obras. Imitemos a Cristo obediente ao Pai até a morte para que assim possamos alcançar a salvação que nos foi prometida desde o princípio. Recusemos perder a vida por causa de prazeres y evitemos sempre, por meio da fidelidade, a escravidão do pecado. Estejamos sempre a serviço de Deus, da Igreja e dos homens.

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