
Para o louvor e glória da Santissima Trindade.
João 3, 14-21
Diante de um mundo de enfermidades, injustiças, totalitarismo e sofrimentos, nos damos conta de que Cristo é causa de alegrias, por isso, seguí-lo representa uma busca por si mesmo, dado que todos buscamos a felicidade.
Pos nossas experiências de vida, podemos dizer que felicidade e alegria se enlaçam, ainda que não se identifiquem como uma mesma realidade. A alegria expressa a felicidade, mas um sorriso no rosto ou alguma outra expressão de agitação não limitam a felicidade. Dor e sofrimentos também podem ser sentidas por pessoas que verdadeiramente são felizes, porque a felicidade é uma decisão pessoal, livre e consciente para um bem contínuo. Alegrias são passageiras e muitas vezes escondem a tristeza que se carrega durante largo tempo da vida. A queda do primeiro homem trouxe a toda humanidade veterotestamentaria, a experiência de uma vida de trevas com poucas luzes de esperanças, que prefiguravam a verdadeira felicidade em Cristo.
O povo hebreu viveu o sofrimento do deserto e dentro dele gozava da relação con Deus. Sem Cristo, o homem experimenta alegrias dentro de um largo tempo de tristeza, com Cristo experimenta dias difíceis, sem que isso rompa sua vida feliz.
Essa dinâmica de dor e alegria no deserto, entre outros fatos, se pode observar pelo ataque de serpentes que levava o povo à morte, como pela sugestão de uma serpente o primeiro homem trouxe a morte para a humanidade.
Estamos acostumados a imaginar a serpente como um símbolo do mal, sem embargo, no deserto, a serpente é sinal de morte y também de vida, graças a ação de Deus para salvar os homens. Por mandato divino, Moisés ergueu uma serpente de bronze, afim de que todos aqueles que foram picados fossem curados ao ver a serpente erguida. Pela serpente muitos morreram e pela serpente muitos foram livrados da morte, assim como por um homem entrou a tristeza no mundo e por um homem todos conheceram a felicidade.
Os Padres da Igreja encontram uma referência entre este relato do deserto com toda a História da Salvação. Para Agostinho, esta serpente não representa o pecado em si, mas a carne do pecado, assim sendo, a serpente erguida é figura de Cristo levantado na cruz para devolver a vida aos homens. No Cristo crucificado está nossa felicidade, pois por este mistério somos livres.
“Deus enviou o seu Filho ao mundo para do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.” Disse João na liturgia de hoje, onde apresenta a Cristo como o novo Moisés que conduzirá o povo de Deus e nos dará a vida eterna.
Essa manifestação amorosa de Deus se vê em toda a História da Salvação e claro, é a dinâmica que nos apresenta a Sagrada Escritura. No entanto, alguns trechos nos deixam essa ideia tão clara que fica quase impossível fazer uma interpretação ou leitura daquilo que é obvio.
Em João nos vem a ideia de Deus que entrega seu Filho por amor, a ser sacrificado em nosso lugar. Se antes julgavamos a Deus como uma divindade perversa que exige o sacrificio de um filho, como pediu a Abraão, nesta liturgia nos silenciamos diante da dor de um Pai que entrega seu Filho a morrer por uma humanidade infiel e injusta.
A dinâmica da Escritura e da liturgia nos fazem pensar primeiro na dor de Abraão, conforme vimos no II Domingo da Quaresma.
A nós, pesa muito pensar na entrega de um filho à morte, sentimos essa dor e esse desespero causado pela imaginação do fato. Talvez nem fossemos capaz de entregar o nosso grande amor, o nosso maior tesouro, nem mesmo para Deus. Então, depois de sentir essa angústia da entrega de um bem mais precioso que se possa ter, um filho único, a Sagrada Escritura e a Liturgia nos apresenta um ação realizada por Deus: a entrega do seu Filho. Não para um outro deus, mas para uma humanidade que se nega a aceitar o sacrificio tão doloroso de ver a morte de um filho, na defesa de pessoas que o ignoram.
Em muitos casos essa ignorancia se dá por uma decisão pessoal de manter-se nas trevas do mal e negar adentrar-se na luz de Cristo. Os homens, de fato, como diz São João “amaram mais as trevas que a luz, porque suas obras eram más”. E não pense que isso não refere a cada um de nós nesse momento, pois sim, decidimos viver na escuridão, sobretodo quando optamos por não sair a luz da vida, para que nossas trangressões não sejam iluminadas por esta luz que revela a verdade.
Preferimos a escuridão, pois lá é mais facil manter escondido nossos piores pecados, nossas mentiras, nossas ofensas, nossas traições. Preferimos estar em dois lados ao mesmo tempo porque para nós é mais cômodo do que ter que adaptar nossa vida ao Evangelho.
Sabemos que seguir a Cristo, entrar na luz, exige um esforço do qual não estamos aptos a fazer, não queremos abrir mão dos nossos prazeres e ficamos em cima do muro, trazendo à luz somente as cascas da nossa humanidade e deixando nas trevas a escuridão dos nossos corações.
No entanto, para salvação de nossas vidas, necessitamos sair por completo dessas trevas e abraçar a luz de Cristo, custe o que custar porque não existe amor mais grande do que essa entrega do Pai a cada um de nós. Entrega que nos livra do veneno da serpente e nos salva pelo Cristo crucificado.
Segunda Crônicas 36, 14-16.19-23
Não podemos viver como aqueles sacerdotes infieis que, estando a serviço de Deus, imitavam os costumes pagãos, praticados nas trevas, fazendo com que o nome de cristão seja manchado na sociedade, como aqueles sacerdotes manchavam o templo do Senhor.
As vezes, de fato fazemos piadas ou não levamos a sério a vontade de Deus para as nossas vidas, tomando caminhos que nos conduzem ao simples prazer. Trazemos costumes do mundo, não sanos, e praticamos como se também fossemos igual ao mundo, não levando em consideração a remissão de nossos pecados na cruz.
O relato de Crônicas apresenta o incêndio proposital do Templo de Jerusalém, pelos caldeos, em que destruiram também todos os objetos pertecentes ao culto. E o povo se tornou escravo na Babilônia.
Se passamos esse relato para a vida prática e considerarmos que nós somos templo de Deus, deviamos nos perguntar: quais são as causas de destruição desse templo? O que temos feito que enfraquece nossa vida espiritual e permite que sejamos atacados pelos inimigos? O que podemos fazer para recuperar esse estado de união com Deus?
Salmos 136
Que se prenda minha lingua ao céu da boca, se de ti Jerusalém eu me esquecer.
Assim choram aqueles que, conhecendo a bondade de Deus, estão escravizados fora de sua terra, ou seja, presos sem liberdade, longe da alegria de estar com Deus. Como estava o povo de Deus, chorando “junto aos rios da Babilônia” com saudades de Sião. Onde se podia cantar de alegria em todo tempo, e não simplesmente alegrar-se algumas vezes na tristeza. O homem que está longe de Deus não pode ser feliz, pois está longe de si mesmo.
Efésios 2, 4-10
Em esses momentos nos damos conta do amor de Deus, diante do sofrimento e da saudade que sentimos da alegria. Então, não nos adianta nada o peso negativo da consciência, que é acompanhado pelo orgulho ou pela vergonha. É preciso simplesmente levantar a cabeça e regressar com coragem para sentir-se amado outra vez, por que de fato, Deus sempre nos acolhe com seu amor.
Esse tempo de Quaresma é propicio para esse regresso, sobretudo, por meio do sacramento da Penitência onde, como dizem muitos santos “o diabo nos devolve a vergonha que havia tomado” para que sem vergonha cometemos pecados e na confissão perdessemos a coragem para dizer o que cometemos.
Por este regresso a Cristo, poderemos gozar das alegrias eternas, não somente nós, mas todos aqueles que receberam a mensagem de Cristo e a aceitaram verdadeiramente, deixando para trás o veneno e as trevas do pecado, para viver na luz que nos concede Cristo.
Arrependamo-nos o quanto antes para vivermos a seviço de Deus, da Igreja e dos homens.