II Dom da Quaresma – Ano B

Para o louvor e glória da Santissima Trindade. 

Marcos 9, 2-10

A plenitude do homem supera todo tipo de sofrimento ou angustia vivida no tempo presente. A fé na glória eterna não é apenas o desejo de uma humanidade fragilizada, que cria ilusões religiosas em busca de alguma espécie de conforto. Deus mesmo é a esperança do homem e nele vemos os sinais da nossa glória como filhos de Deus, pois a glória do Filho do homem, é a nossa glória também. A transfiguração do Senhor no monte Tabor é a manifestação de uma realidade futura, da qual faremos parte plenamente. O Senhor transfigurado, junto com Moisés e Elias, é símbolo do futuro eterno da humanidade.

No Evangelho de São Marcos, encontramos alguns elementos que merecem destaques para nossa reflexão. A mesma transfiguração em um lugar elevado e isolado indica uma realidade que transcende o comumente conhecido. Tudo o que se refere ao divino tende a elevar a humanidade, como Cristo mesmo elevou aqueles 3 discípulos, Pedro, Tiago e João, ao monte, para ver com os próprios olhos, as promessas feitas aos que o seguem.

De fato, embora estejamos neste mundo, somos estrangeiros. Diz a Carta a Diogneto que o cristão não tem pátria, de tal forma que em todos os lugares está em sua terra e ao mesmo tempo é turista. A mesma vida com Jesus leva a essa experiência do “já, porém ainda não“. Em nossa vida cotidiana podemos experimentar os gozos e as alegrias de como viveremos na Pátria Celeste, nossa verdadeira casa. Essa é a nossa esperança, estar ao lado de Deus, por isso, nossa maneira de enfrentar os problemas cotidianos são distintos. Pelo relato de Pedro sabemos que estaremos em comunhão com todos os homens que confiaram em Deus.

A transfiguração do Senhor revela essa koinonia y união histórica/religiosa, ou seja, unidos em comunidade e pela fé. Neste relato, Moisés representa a lei e ao aparecer transfigurado com o Senhor, indica que há uma associação entre o decálogo e a mesma vida de Cristo. Não existe uma ruptura, como acreditavam os judeus do tempo de Jesus, mas uma renovação da lei. Não uma novidade absoluta, mas uma nova expressão de vida  na lei, a partir de Jesus. Elias, é então, a figura do profeta, confirmando união entre o Messias esperado e o Messias encarnado. A aparição de uma figura representante da lei e outra do profeta, expressa que há comunhão entre as 3 figuras. Cristo não mudou a lei, cumpriu perfeitamente e a aperfeiçoou, não foi profeta, mas aquele a quem os profetas esperavam.

Sobre isso nos diz São João Crisóstomo, assim: “O Senhor fez aparecer Moises e Elias. Ao primeiro, porque as pessoas diziam que Cristo era Elias, ou um dos profetas, manifestava assim aos seus discípulos a diferença que havia entre o Senhor e seus servos. Aos dois juntos (Moises e Elias) porque, acusando-o, os judeus de transgressor da lei e de blasfêmia por atribuir-se a glória do Pai, convinha que se mostrassem unidos a Ele, Moises como legislador e Elias como zeloso defensor da glória de Deus”. 

Assim também estaremos nós, diante do Senhor. O sofrimentos presente perdem o sentido doloroso, quando miramos o nosso objetivo final. A dor existe, e podemos transformar-la de desespero à esperança, ou de fardo à penitência. Aquele que carrega a sua cruz, consciente do projeto de Deus para a humanidade, não é o mesmo que ignora o futuro eterno, de uma humanidade transfigurada. Pois esta transfiguração será também nossa, diz São BedaTransfigurado o Salvador, não perdeu sua substância corporal,  mostrou a glória da futura ressurreição sua e nossa. Aquele que assim apareceu aos Apóstolos, assim aparecerá depois do juizo final”.

Dito da transfiguração, a que poderia interessar-nos as vestes tão brancas que ninguém poderia lavar tão bem a chegar a este ponto de brancura? Se recorremos, como de costume aos Santos Padres, para não incurrir em erro, podemos chegar a algumas interpretações. São João Crisóstomo interpreta essas vestes como um símbolo do Evangelho, cuja claridade não pode ser comparada a nada e ninguém tem capacidade para se igualar ao Evangelho. Orígenes a su vez, e parece mui eficaz, apresenta uma intepretação moral deste texto, pois segundo ele, nenhum sábio, mesmo com toda a sua sabedoria ou sendo considerado o mais sábio entre todos os homens, não poderia nunca chegar a brancura das vestes do Senhor, ou jamais ter sua sabedoria .

Gn 22, 1-2.9-13.15-18

Ainda que fossem transfigurados, como muitos foram e serão quando estiverem na glória de Deus, não em mesmo nível, pois somos feitos por Deus e para Deus, portanto nunca seremos igual e tão pouco pretendemos, afinal, sempre que tentamos suprir nossas necessidades a todo custo, nos damos conta de que nada é suficiente. Então, como é impossível agotar-se de Deus, nunca o alcançaremos por completo, porém não alcançar-los é também uma possibilidade.

Quando rompemos nossa relação com o Senhor, caminhamos ao lado oposto, nos distanciando ainda mais dessa transfiguração. Mas, como não perder de vista esse ponto de partida? Obedecendo, como Cristo, ou como Abraão, que diante do seu maior tesouro obedecia ao Senhor. 

Merece destaque a obediência de Abraão, nesta liturgia, pois ela é como um caminho que nos conduz a plenitude do nosso próprio ser. Abrãao não sabia exatamente o que se passaria, por dentro sofria a certeza que entregaria seu filho único ao sacrificio a Deus. Certamente não entendia as razões que levavam Deus a tomar essa atitude, mas não questionava porque confiava, não que o menino seria salvo, mas na mesma vontade de Deus. Talvez tivesse que por fim à vida do seu filho, mas o que importa aquí é a relação homem-Deus que mais tarde se configura em uma relação Deus-homem.

Nesse sentido tipológico, Isaac é figura do Cristo, o Filho único entregue ao madeiro. De alguma maneira Abrãao tem seu filho sacrificado, porém não Isaac, mas o Cristo que nasceu de sua linhagem. A dor poderia ser a de Abrãao, mas foi a dor de Deus, que viu seu Filho pendurado em uma cruz, acusado de haver transgredido a lei e blasfemado contra o nome de Deus.

Salmo 115, 10.15.16-17.18-19

Não se pode pensar a escritura a partir de um ponto de vista malicioso ou ideológico de Deus, pois ele não propõem o sofrimento e a dor ao homem, mas sofre junto com os homens, as suas decisões pessoais. Ao contrario, liberta os homens de suas cadeias e oferece bênçãos na vida terrena y gozo celeste na eternidade, então, resta a cada um de nós estarmos atentos à vontade do Senhor para obedecermos e alcançarmos a plenitude do ser. 

Rom 8, 31-34

É o próprio Deus que nos dará a graça da transfiguração, pois ao dar-se ele mesmo a nós, seremos como lumbreras celestes, por isso não devemos temer outra coisa, se não perder essa possibilidade de estar junto dele. O que interessa a Pedro, a Abraão, e a nós, é o mesmo que interessou a Moises e a Elias, fazer a vontade de Deus como resposta de seu profundo amor para conosco, pois não entregou um homem qualquer para morrer por nós, mas seu Filho unigênito. Cristo sofreu por nós, o que somos incapazes de sofrer, mesmo pelas pessoas que amamos. Que nesta quaresma aprendamos a buscar a graça da plenificação de nossa humanidade, para que seja feita em nossas vidas a vontade do Pai, assim podemos servir a Deus, à Igreja e aos homens, para colaborar com o crecimento do Reino.

Deixe um comentário