I Dom da Quaresma – Ano B

Chegamos ao Primeiro Domingo da Quaresma, desejosos de conversão, porém uma conversão que exige nossa ação, por isso este é um tempo de penitência, oração e esmola. Na quaresma, somos chamados a colaborar ativamente com o Reino de Deus, sem embargo, não podemos fazer nada sem a moção do Espírito que conduz todo cristão ao bem.

Marcos 1,12-15

O Evangelho de Marcos nos apresenta o já conhecido relato do deserto, em que Jesus foi tentado, porém de forma bastante resumida, se comparamos com os outros relatos sinóticos (Mt 4, 1-11 y Lc 4, 1-13), portanto, dediquemos nossa atenção ao pequeno trecho de Marcos.

Existe um primeiro elemento neste Evangelho que é comum à primeira leitura e à segunda. Se observamos, a liturgia apresenta um texto que começa com “O Espírito levou Jesus para o deserto”, o relato segue o batismo de Jesus no Jordão, em que o Espíritu do Senhor baixa sobre ele e se mantêm com ele, levando-o ao deserto, onde esteve por quarenta dias e quarenta noites, foi tentado por Satanás, viveu entre animais selvagens e foi servido pelos anjos. Marcos se detêm apenas nessas informações sobre o deserto.

O deserto como sabemos, a pesar de lugar de sofrimento, solidão, tristeza e fome, é um lugar de encontro com Deus, onde todas as realidades negativas, à primeira vista, se transformam em oportunidades para um diálogo verdadeiro com o Senhor, como aconteceu com o Povo de Israel. Através dessa experiência de fuga da escravidão, o deserto se torna o lugar de uma relação amorosa com Deus. Ir ao deserto, regressar ao deserto é sempre uma busca ao amor de Deus, que se dá. 

A doação amorosa de Deus é ponto fundamental para compreender a relação criatura-criador, pois estamos acostumados a imaginar que o mundo se desenvolve a partir de nossas atividades e esquecemos que o mundo será mundo, mesmo quando todos estivermos mortos. Nessa relação amorosa, não é o homem quem toma a atitude de amar ao seu Deus, se não que é este Deus amoroso que ama e conhece o homem, antes mesmo de ser conhecido por ele. 

Dentro desta dinâmica do amor, atua o Espírito Santo na vida dos homens, conduzindo-os ao encontro com Deus. O Espírito faz aquí o papel de Cupído entre criatura e criador. Sem dúvida, a comparação Espírito Santo e Cupído é de uma analogía extremamente limitada, mas nos permite entender esta realidade, segundo os moldes da cultura que nos foi propagada. De fato, se há uma relação amorosa entre homem e Deus, ela se dá por meio do Espírito Santo, que recebemos pelo batismo. 

Ainda que não entendamos o modo de atuar de Deus, devemos ter claro que muitas vezes é este mesmo Espírito Santo que nos conduz ao deserto, quando passamos por dificuldades que parecem insuportáveis, quando somos tentados a abandonar nossas crenças e trair nossa fé. Porém, nem toda experiência de deserto é de fato um deserto, algumas vezes são ideias escrupulosas ou inveções de uma fé imadura. Ou em outro casos mais extremos, o homem busca o deserto por sua própria conta. Em todos esses três casos, a queda é uma certeza. 

Talvez ao escrupuloso a culpa seja menor, afinal de contas há uma falta de realismo no juízo de uma mente com escrúpulos. A pessoa que sofre desta enfermidade espiritual tende a ver pecado onde não existe ou aumentar a gravidade de um pecado real. As invenções de uma fé imadura podem ser distintas do caso anterior, portanto a culpa é maior e peca por vaidade, orgulho ou soberba. É próprio do imaduro na fé, crer que vive em moradas elevadas na vida espiritual, e assim pensa por confundir sentimentalismo com experiencia mística. Destes três, o pior é aquele que busca o deserto por conta própria, jogando com o diabo, se envolve em ocasião de pecado para treinar sua própria vontade, peca por idiotisse. E talvez peque contra o Espírito, porque a santidade só é possível com o Espírito, portanto a busca por ser santo sem Ele, é uma tentativa de roubo da graça.

São João Crisóstomo, ao falar sobre a ação do Espírito Santo de levar Jesus ao deserto indica que não devemos buscar a tentação, mas lutar para vencê-la, em todas as ocasiões que nos forem apresentadas. E acrescenta que Jesus lutou “contra o diabo para que cada um dos batizados resistisse pacientemente as maiores tentações depois do batismo, e para que permanecesse vencedor, resitindo tudo, não se turbando se algo acontece fora do espera” e que o diabo não tenta aos que são fracos, se não aos que estão mais próximos de Deus.

Sobre os quarenta dias, São Beda utiliza os dez mandamentos como regra para lutar contra todo tipo de tentação e em todos os lugares do mundo, a saber, os 4 pontos cardeais. A soma de todos os lugares do mundo e a prática da lei equivalem a 40, que é o tempo em que Jesus esteve no deserto. Sobre este número, alguns outros teológos definem como um “tempo suficiente” para algo. A liturgia católica utiliza esse número de dias para definir o período da quaresma, escalando entre os domingos e dias de festas, em que por costume não se faz penitência.

O Evangelho segue dizendo que após o deserto, Juan foi preso e Jesus começou sua vida pública. A ordem destes eventos são narrados de acordo com a intenção de São Marcos, em mostrar que lei (João) e Evangelho (Jesus) seguem um trajeto linear, ou seja, Cristo é a nova lei. São Jerônimo apresenta uma bela analogia deste fato. Segundo ele, aquilo que estava sob a sombra, é visto com mais claridade quando é iluminado pelo sol, assim, aquilo que não se podia entender claramente, se sabe com a vida de Jesus e seu anúncio do Reino.

Se nota em Jerônimo, uma possível interpretação da relação Juan-Jesus com a vida de penitência, quando diz: “Faz penitência aquele que quer estar unido ao eterno Bem. Quem deseja a amêndoa da noz, rompe a casca. O doce da fruta compensa o amargo da raiz. A esperança do enriquecimento torna agradável os perigos do mar”. Assim como a lei é renovada pela Nova Aliança, o homem se renova pela penitência.

Gênesis 9, 8-15

A Aliança de Deus com Noé, conforme vemos na primeira leitura, ainda não é a aliança feita com o Povo de Deus, se não que uma aliança com todo o mundo, depois da experiência da arca. Nota-se que o pacto Deus-Noé se dá após o dilúvio, ou seja, com a purificação do pecado do mundo, pela água que caiu durante os 40 dias. Estamos outra vez diante desses quarenta dias e podemos considerar como um tempo suficiente para que o mundo seja purificado de todos os pecados, em que se encontravam os homens no tempo de Noé. Assim como o Espírito se dá após a água do batismo, a Aliança de Deus com o mundo se deu após as águas do dilúvio. 

A relação com Deus se dá por meio do batismo. Mas como nós, ja batizados, podemos regressar a esse estado de neófito?  Segundo Tomás de Aquino pelo Sacramento da Penitência tornamos ao estado de purificação pelo batismo. 

Voltar ao estado de pureza é uma exigência da vida de penitência, pois esse desejo de conversão presume  uma contrição perfeita, que a sua vez conduz à confissão dos pecados, para de fato começar a projetar um câmbio de vida.

Sl 24, 4-9

A penitência sacramental não é um fim em si mesmo, se não um caminho para conduzir a Deus, assim como “verdade e amor, são os caminhos do Senhor”. 

O salmista, assim como em muitos outros salmos, expressa seu profundo arrependimento pelos pecados cometidos, porque conhece a si mesmo e reconhece as suas infidelidades para com Deus. 

A relação Deus-homem se expressa rompida, pelo homem infiel diante da fidelidade de Deus. Não obstante a esse rompimento da aliança, o homem tende a reconhecer que Deus é a única salvação.

Primeira Pedro 3, 18-22

A segunda leitura da liturgia de hoje, toma outra vez o batismo como ponto chave desse Primeiro Domingo de Quaresma, porém com um sentido puramente cristológico, como uma renovação da Antiga Aliança. 

Assim como a morte de cruz de Cristo, causada pelos nossos pecados, nos justifica e nos conduz a Deus, de igual modo o batismo perdoa os pecados e nos faz filhos de Deus pelo Filho, com o Espírito Santo. Há uma dinâmica trinitária que envolve todo neófito e o impulsiona a uma ação salvifica na história. 

Obviamente em Cristo, essa ação na historia deveria ser plena e universal, por isso pelo Espírito, liberta os que estavam presos pela morte desde os “tempos de Noé”. A morte de Cristo tem uma ação redentora no passado, no presente e no futuro.

O próprio Pedro explica a primeira leitura que fizemos nesta liturgia, dizendo “a arca corresponde ao batismo, que hoje é a vossa salvação. Pois o batismo não só serve para limpar o corpo da imundicie, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência em virtude da ressurreição de Jesus Cristo”. 

Pedro tem uma ideia clara de que, diferente das religiões étnicas, onde apenas determinados povos podem participar, no cristianismo, todos podem se fazer cristão, usando sua própria liberdade para “pedir a Deus” que ingresse na comunidade cristã.

Peçamos portanto, a Deus, que nos conceda a graça de viver perfeitamente as promessas do nosso batismo, para que assim possamos estar a seu serviço, ao serviço da Igreja e ao serviço dos homens. 

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