Ou você ignora o mundo, ou sofre com ele

Nossa cruz parece, muitas vezes, um escudo que nos impede de ver as dificuldades que vivem os outros. E isso não pode ser visto como um ponto positivo, pois se a cruz possui alguma função, e possui, é para a nossa santificação, não para a indiferença ao mundo. 

Se mundo e cruz pessoal devem relacionar-se, a usaremos como pontes para salvar o outro do perigo, mas nunca, em hipótese alguma, ignorar. Sempre que ignoramos a cruz do outro, fazemos porque acreditamos que o peso que carregamos é mais importante e mais pesado que todas as outras dificuldades que se possa imaginar.

No entanto, há situações em que devemos colocar nossas dificuldades, por mais grandes que sejam, em segundo plano, para carregar a cruz que o outro leva. Algumas vezes vamos precisar jogar nossa própria cruz no chão para ajudar o outro a levar a sua, sem se preocupar com a fama ou o sucesso pessoal. Devemos ser um Simeão na vida do outro.

No decorrer da caminhada, e somente na medida em que você se faz verdadeiramente humano, se dá conta de que ou você ignora o mundo, ou sofre com ele e na pior das possibilidades, ignorar o outro é ignorar-se a si mesmo, pois não ha como ser humano sem ser humano.

É próprio do homem ser um ser de relações. A filosofia de Boecio afirma que o homem é homem em sua essência, mas Tomás de Aquino diz que o homem só pode ser homem em suas relações e como cristãos. Não podemos negar essa verdade, não por ser Tomás, mas por haver verdades em seus fundamentos. Como filosofia e teologia, Boécio e Tomas se complementam.

Porém, de que vale ao homem ser homem sem o outro? Essa experiência negativa, vivida por Adão e expressada como uma realidade incompleta, se manifesta quando aquele primeiro homem diz “essa sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne”. Um homem sozinho é inútil porque foi criado imago Dei, pessoa em si mesma, mas sempre em relação. Precisamos do outro porque na Trindade existe relação.

Porém, o outro sofre, e a medida que nos aproximamos dele, sofremos as suas dores, pois começamos a amá-lo e não suportamos as suas tristezas. Nos sentimos injustiçados quando quem amamos é injustiçado, nos sentimos ignorados quando ignoram a quem amamos, sofremos a fome e a sede que sente o outro a quem amamos. O sofrimento do outro é o meu sofrimento.

Diante dessa verdade, a única saída que temos é estender as mãos e dividir a cruz, para que soframos juntos o que não podemos deixar de sofrer, ou ignoramos o mundo. Mas se assim fizermos, deixamos de lado uma parte essencial de nossa vida, a nossa mesma razão de ser. Talvez a morte seja menos dolorosa do que a ofensa contra uma verdade transcedente do homem, afinal aquele que morre não deixou de ser pessoa, mesmo depois de morrer, mas aquele que nega sua própria existencia como imago Dei é alma existente que não crê em si mesmo. 

Dificil, doloroso, desconfortável encontrar uma solução para o sofrimento que sentimos pelo outro que sofre, mas ignorar é uma impossibilidade ontológica do nosso próprio eu. Em todo caso, é melhor abraçar o mundo e sofrer junto com ele. 

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