
Para o louvor e glória da Santissima Trindade.
O Evangelho desse domingo é um sinal de esperança, para cada um de nós que somos pecadores, ou que estamos manchados de impureza, pois o Senhor vem para curar-nos.
Marcos 1,40-45
Segundo o evangelista Marcos, havia um homem leproso que pediu a Jesus para ser curado, mas não pediu simplesmente, se não que disse “se tu queres“, conformando-se com a vontade divina, como a sogra de Pedro, curada para servir. Ao ouvir aquele homem, Jesus levantou a mão e tocou, ou seja, pôs a mão naquilo que era impuro, para tornar puro.
Diz São João Crisóstomo: Embora pudesse curar o leproso com palavras, ele o toca, porque a lei de Moisés dizia (Lv 22,4-6): “Quem tocar no leproso será imundo”. Com isso ele queria mostrar que essa impureza estava de acordo com a natureza. E visto que a lei não havia sido ditada para Ele, mas apenas para os homens, e visto que Ele mesmo era propriamente o Senhor da lei, e curou como Senhor e não como servo, Ele tocou no leproso, embora o toque não fosse necessário … para que a cura ocorresse.
A resposta de Cristo afirma que é sua vontade que os homens sejam curados de suas impurezas, por isso disse “Quero: seja curado!” O texto deve ser entendido como duas expressões, a primeira afirma a vontade de Deus e a segunda é a consequência dessa vontade, que se deu no mesmo instante.
O Evangelho continua narrando alguns fatos conhecidos para nós, como o segredo messiânico não respeitado pelo leproso, que imediatamente falou a todos o que lhe havia acontecido, gerando un rechaço a Jesus dentro das cidades, por isso ficava fora dos muros, onde as pessoas o buscavam.
Nos últimos três domingos, a liturgia apresenta relatos da vida pública de Jesus em que São Beda associa ao relato do pecado original. A ordem dos personagens se repete em vista a remissão dos pecados. Se em Gênesis a serpente apresenta o pecado à mulher e depois a mulher oferece o fruto ao homem, no Evangelho de Marcos, Cristo expulsa o demônio de um homem, cura a sogra de Pedro, uma mulher e depois cura um leproso.
A liturgia dá mais sentido ao pôr a leitura imediatamente após o Tempo do Natal, em que celebramos a Encarnação do Verbo, sem embargo existe um pequeno intervalo entre a liturgia desse domingo e o Natal. O Batismo marca a teofania trinitaria em um ambiente comunitário e o segundo domingo narra a mudança do nome de Simão para Pedro. Se nota uma ação de Deus que caminha em busca dos homens, porém por meio de uma comunidade eclesial, definida pela figura de Pedro, como o pastor de um rebanho.
Levítico 13,1-2.44-46
O tema da lepra como impureza, que lemos no Evangelho de Marcos, pode ser compreendido a partir da primeira leitura, retirada de um trecho de Levíticos. Após a cura daquele homem leproso, Jesus lhe pede que vá a um sacerdote para purificar-se, conforme a lei de Moisés, para confirmar que havia sido curado da enfermidade. O sacerdote faz a vez de um agente sanitário, responsável por controlar a saúde fisica e espiritual do povo. O enfermo deve dar sinais de sua enfermidade e viver isolado dos demais, para não lhes transmitir doença, por isso deveria andar com roupas rasgadas, cabelo despenteado e barba mal feita. O rito de purificação dito por Jesus, consiste em oferecer dois pássaros vivos e puros, de modo que um seja sacrificado, significando o fim de um homem enfermo, e o outro pássaro seja solto, representando o novo homem livre, o rito segue por outros dias mais, com outros gestos e outros sacrifícios (cf. Lev 14), mas nos importa focar nesta renovação do homem velho ao homem novo.
Esta série de medidas diante da lepra, não se tratava apenas de uma questão espiritual, mas social, afinal o homem não é somente um ente religioso, mas uma pessoa real dentro da sociedade. Essa visão do homem formado a partir de duas realidades é necessária para compreender o Mistério da Redenção, que salva o homem por completo, corpo e alma, não um fragmento da pessoa.
A questão da lepra foi polêmica durante muitos séculos. Apenas nas últimas décadas se pôde olhar a enfermidade com outros olhos, apesar de haver muito preconceito em torno ao tema. A vida de São Francisco é sinal disso, e marca um processo de mudança entre homem velho e homem novo, porém a partir de uma outra perspectiva. Diante do preconceito, o leproso serve de bússola que indica o processo de conversão de Francisco. Em sua juventude, o santo de Assis foi conhecido por suas extravagâncias e vaidades. Por conta de sua imagem, temia aproximação com leprosos, até o dia em que, durante seu processo de conversão se aproximou a um destes enfermos e lhe deu um beijo, vencendo a si mesmo e ao seu orgulho. Este fato marca um ponto definitivo na vida do Santo, que assim como Cristo, não apenas se aproxima, como também toca no enfermo. O que antes era amargo, se torna doce.
Sl 31,1-2.5.11
A saída da impureza para a pureza marca uma nova relação com Deus. Assim como a enfermidade corporal prejudica o homem, as enfermidades espirituais ferem a pessoa. Se a enfermidade corporal tira do homem a saúde, a enfermidade espiritual rompe a relação da pessoa com Deus e o melhor meio para reestabelecer a relação é por uma atitude de humildade e reconhecimento de falhas.
A comunicação com Deus nunca pode se dar com a impureza, não porque não queira, se não porque impureza e pureza não se podem mesclar, sem embargo oferece possibilidades ao homem para que se purifique e volte à relação. Mas não se trata aquí, de nenhum modo, de um capricho de Deus, mas do cuidado para que o homem também se divinize, se purifique por meio de Cristo.
“Bem aventurado o homem que foi perdado e cuja falta ja foi encoberta”, pois tem a possibilidade de voltar ao estado de pureza concedido pelo Senhor, no dia do batismo.
Primeira Corintios 10, 31-11,1
O capítulo 10 da primeira carta aos Corintios, sobretudo nos últimos versículos, faz uma referência aos sacrificios pagãos e aos que comem desse sacrificio. O tema é bastante pertienente, porém não é a exata leitura que a liturgia nos propõe, então devemos focar nas palavras de louvor do apóstolo Paulo e relacionar-lo à vida de pureza.
O ponto central deste texto, podemos delimitar pelo “fazei tudo pela glória de Deus”. Já dissemos em outras oportunidades que Paulo é figura exemplar da mudança de homem velho para homem novo, de uma vida de impureza para uma vida de pureza, como aquele homem do Evangelho, mas o que o torna destaque, é sua consciência clara de que Cristo é quem pode purificar o homem enfermo.
A partir do momento em que tomamos consciência da centralidade de Cristo em nossas vidas, podemos relacionar-nos com os demais sem nenhum outro impedimento, sem nenhuma mancha que fira a minha relação com Deus e com a comunidade. Afinal de contas, a lepra não rompe apenas a relação homem-Deus, mas homem-comunidade, pois o afastamento o tira da dinâmica fraterna.
Podemos ver diversas enfermedades espirituais que rompem o laço com a comunidade, gerando escândalo e ferindo as relações sociais, pois o pecado, a pesar de ser uma ação pessoal, sempre terá uma condição social. Seja caluniador, mentiroso, assassino, ladrão, o pecado de um, afeta a estrutura da comunidade.
Então a busca pela pureza não se trata apenas de um desejo para o bem pessoal, ao praticar virtudes e viver uma vida santa, o pecador toma consciência de que seu papel dentro da comunidade é fundamental e, portanto, não pode agir de acordo com os seus caprichos. Não é apenas o pecador que sofre as consequências de sua ação, mas toda a comunidade que perde ou fere um membro do Corpo de Cristo.
Muitos de nós temos o costume de rezar, sobretudo no Rosario, quando meditamos o quinto misterio doloroso, pela conversão dos pecadores e devemos fazer assim sempre, porém considerar que entre estes pecadores, estamos também nós, peregrinos em caminho. Lembremos sempre: não se vive como cristão, se não é a serviço de Deus, da Igreja e dos homens.