
Para o louvor e glória da Santissima Trindade.
O Evangelho desse quinto domingo nos narra a famosa passagem em que Jesus curou a sogra a Pedro e em seguida, curou muitos enfermos e expulsou demônios.
Mc 1, 29-39
Este é o terceiro domingo seguido que lemos o primeiro capítulo de Marcos, em que fala do chamado dos 4 primeiros discípulos, André, Simão Pedro, Tiago e João como um princípio da vida pública de Jesus. O Evangelho diz que sairam juntos para a casa da sogra de Pedro que estava enferma, foi curada por Jesus e imediatamente começou a servir aos peregrinos.
Teófilo de Antioquia (s. II) faz um comentário pertinente sobre esta cura. Segundo ele “Isso significa que se alguém adoece, será curado por Deus se servir aos santos por amor de Cristo”.
Em uma primeira leitura, o evento poderia ser ofensivo para a mentalidade ideológica atual, ja que a mulher havia sido curada e em seguida foi servir aos homens.
Do ponto de vista espiritual, podemos nos perguntar “Para que queremos o que pedimos?”. Fazemos tantos pedidos, desejamos que tantas coisas em nossas vidas se realizem, mas não paramos para medir as consequências do que pedimos. Em vista do que ou de quem, queremos que Deus realize um milagre em nossas vidas? Seria apenas uma vaidade, um desejo pessoal ou uma necessidade para a santificação? Se levamos em conta o fim último de homem, devemos associar nossas súplicas a este fim. O milagre venha ou não venha, que seja para a glória de Deus.
Esta pasagem de Marcos, de costume está divida em três momentos. Primeiro nessa cura que comentamos, nos outros milagres que acontecem devido a este primeiro e no momento em que Jesus sai para rezar, enquanto todos dormiam.
O relato das curas nos deixa algumas mensagens entre linhas. Primeiro que nem todos foram curados, ou seja, nem todos receberam o que pediam. O Evangelho diz que Jesus curou a muitos dos que estavam alí, o que nos faz entender que não curou a todos. Existem diversos motivos pelos quais Deus não concede um milagre, e certamente tudo o que faz é um bem. Não vale a pena questionar a vontade de Deus, pois ele nos vê a partir de uma outra perspectiva, que nenhum humano pode conseguir ver. O único que devemos fazer é confiar na sua vontade e nunca duvidar da sua bondade.
Uma segunda mensagem que esse texto nos traz, sobre as curas e expulsões de demônios, é que Jesus impede esses espiritos de que digam algo, porque eles sabiam, ou como dizem alguns Padres, “talvez sabiam”, pois os demônios não tem onisciência, veem a realidade com a mesma visão dos homens, claro que de um modo mais abrangente porque conhecem mais que os homens. Porém, a visão dos espiritos maus não são a centralidade desse Evangelho. Jesus impede que eles falem algo para que seja mantido o segredo messiânico, propagado pelos Evangelistas.
Ja dissemos diversas vezes, mas nunca é demais repetir, o Povo de Deus esperava um Messias. Essa espera movia toda a esfera politico-religiosa do povo judeu. A vinda do Messias não era algo visto como possibilidade, mas um fato, porém esperavam que surgisse majestoso, em um trono de glória para derrubar o Império reinante. Por esta mentalidade, Jesus insiste em guardar o segredo de sua vida. Seu projeto não era politico, a libertação não se baseava em romper estruturas sociais, mas fazer brotar no coração do homem uma nova perspectiva religiosa, baseada no amor. Somente apartir desse amor, se daria todas as outras manifestações visíveis da práxis cristiana, mas nada pode ser realizado, sem uma primeira conversão interior. A lei deixa de ser letra e se torna o Verbo Encarnado. Tudo o que queremos fazer, que façamos por Cristo.
Esse é um grande problema para a mentalidade judia, sobretudo, pelos judeus apegados às normas. Havia, no tempo de Jesus, como também existe hoje, uma supervalorização da lei sobre a pessoa. O moralismo leva os homens a mentalidade de servidão à normas positivas, quando na verdade o fim último da lei é a pessoa humana. Toda e qualquer legislação deve ser favorável ao homem. A sociedade não pode ser escravizada pela norma, como estavam escravizados aqueles judeus, que preferiam a enfermidade a ser curado em dia de sábado. O Evangelho diz que “depois que o sol se pôs” muitos apareceram para ser curados. O pôr-do-sol indica o fim de um dia, e por se tratar de um sábado, as pessoas foram buscar a Jesus somente ao fim deste dia, porque consideravam uma ofensa à lei.
Mas é claro que é preciso entender a mentalidade do tempo. Ninguém, naquele momento, tinha conhecimento de que se tratava do Messias esperado, provavelmente pensavam que Jesus era apenas um profeta, não Deus, pois certamente estariam com ele, sobretudo no sábado que é dia de culto.
Para Jesus, não havia infração da lei, pois o sábado estava destinado para o culto, e Ele sendo Deus, era o lugar encarnado onde se devia prestar adoração. Os milagres que Jesus realizava nos dias de sábado manifestam que, de fato, Deus faz prodigios no meio do seu povo, porém viam a partir de uma outra realidade que os homens não podem ver.
O último trecho desse Evangelho relata que Jesus saiu para rezar, sem que nada vissem, e depois Pedro o encontrou e disse que todos o estavam procurando, ao que Jesus responde “Vamos a outra parte, pregar aos povos vizinhos, pois para isso saí”. A teología bíblica encontra dois significados para essa resposta de Jesus. Primeiro que de fato foi pregar por toda Galiléia, porém há um sentido mais profundo quando Jesus diz “para isso saí”, pois pode significar sair de Deus, sair da eternidade. Ou seja, encarnar-se para comunicar o Reino de Deus entre os homens. É como se Jesus dissesse a Pedro, “vamos ao encontro de todos, porque saí de perto do Pai, para estar junto dos homens”.
Jó 7, 1-4. 6-7
Sobretudo junto daqueles que sofrem, porque veio para anunciar um novo tempo, uma nova aliança. Jesus que trazer ao homem aquilo que Jó buscava na primeira leitura.
Jó não via a hora em que seus dias na terra terminassem, porque igual a nosotros em dias escuros, não vemos o fim. Tudo parece tão monótono e escravizante. O homem parece estar inclinado a uma mesmidade, a um ciclo infindável de angústias. Todos os dias são iguais, todas as noites são tenebrosas, e aos que vivem noites escuras tudo é mais lento e mais pesado. Não conseguimos ver a beleza de uma noite escura.
Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada, já no amado transformada!
Dizia São João da Cruz, que a noite é uma oportunidade para o encontro com o Senhor, nela nossa alma amada encontra o Deus amado. Nos sofrimentos das noites escuras buscamos e encontramos o Deus que se encarnou para estar com os homens, o encontramos também em seu sofrimento, porque sofremos a cruz de Cristo em nossas vidas, e Cristo também sofre as nossas dores.
Em uma de suas consultas, Viktor Frankl conheceu um senhor que sofria a perda de sua esposa, estava ele vivendo uma noite escura da alma, na qual não encontrava uma luz que desse sentido para a sua experiência de dor. De fato, diante da dor, nos aprisionamos a ela como um cárcere em que nossa alma não consegue ver o sol. Viktor Frankl, ouviu aquele senhor e disse: “Se você tivesse morrido primeiro, estaria ela sofrendo por sua morte”. Aquele senhor imediatamente se deu conta de que valia a pena sofrer, para que uma pessoa amada não sofresse no seu lugar.
Salmo 146 (147)
Essa foi a mentalidade de Cristo, sofrer para que nós nao sofressemos uma morte eterna.Ele veio para restaurar os corações detroçados e para nós, não há motivo de desespero, mesmo diante da dor, porque sabemos que esse Deus em quem acreditamos edificou Jerusalém e congregou outra vez o seu povo que estava disperso, sarou os corações dilacerados e salva o homem.
O Deus em quem acreditamos é quem operou milagres na vida de Abraão, de Isaac, e Jacó, quem restaurou o coração de Davi, quem firmou uma Aliança com o seu Povo e deu seu único Filho para morrer em nosso lugar. É o mesmo Deus que transformou Paulo, de inimigo em defensor da fé cristã.
1 Corintios 9, 16-19. 22-23
Diante do sofrimento e perseguições, Paulo é um grande exemplo para todos nós, porque toma como base da sua vida, o amor. E é exatamente esse amor que o conduz a uma vida de pregador, a partir de uma experiência pessoal. Em Paulo vemos um enredo que se repete na vida de todos aqueles que conhecem a Jesus.
Há uma experiência anterior de descontentamento ou desconfiança, que se manifesta de diversas maneiras, incluso de sofrimento. Paulo perseguia os cristãos porque também duvidava que Cristo fosse o Messias, nós, diante do sofrimento, caimos na tentação de duvidar da bondade de Deus.
Sem embargo, em algum momento, Ele se manifesta renovando a nossa história de vida, mudando nossas perspectivas para que possamos sair de uma noite escura para a luz, que é Jesus.
A experiência de libertação nos leva, como a Paulo, a pregação do Evangelho, porque não é possível falar de outra coisa que não seja o Amor. Quem faz uma verdadeira experiência de Cristo, é incapaz de esquecer o seu amor.
Mas vale ressaltar que essa relação com Deus se dá por sua bondade e apartir da sua visão certeira do mundo. Nem sempre uma experiência com Deus significa uma saída da noite escura, as vezes pode ser uma companhia paciente, em que sofredor e Deus estão juntos, à espera tranquila, da luz que ilumina o dia. Na alegria ou na tristeza, Deus sempre nos acompanha. E nós devemos ter sempre essa consciência para ser um sinal de luz nas noites escuras da humanidade, para que assim possamos estar sempre a serviço de Deus, da Igreja e dos homens.