III Dom do Tempo Comum – Ano B

A liturgia pós-batismo do Senhor está fortemente marcada pela formação do grupo dos 12. No domingo passado, o Senhor ja havia chamado a André e a Pedro, segundo os escritos de João. Hoje, Marcos complementa com o chamado a Tiago e a João.

Mc 1, 14-20 

O Evangelho desse domingo começa com a entrega de João Batista, talvez para explicar o Novo Tempo, com o fim das promessas messiânicas e o inicio da ação pública de Jesus. Na sua pregação, João anunciou o Reino de Deus que havia chegado ao povo, então se retira para dar lugar a Nova Aliança que se inaugura com Cristo. O chamado é o ponto de partida da comunidade que segue o mestre. Seguir pressupõe que quem está sendo seguido caminhe em frente mostrando, ensinando e vivendo.

Simão e seu irmão André estavam pescando e abandonaram suas redes para seguir a Jesus, mais tarde, Tiago e João, filhos de Zebedeu, deixam seu pai trabalhando com os empregados para também seguir a Jesus.

No início deste Evangelho, João Batista anuncia a chegada do Reino que está entre nós. O Reino anunciado por ele é o mesmo Rei que habita entre os homens, onde está o Rei, está o seu reinado. Nas palavras de Jesus, o reino está no meio de nós, porque o rei prometido pelos profetas, vive entre os homens. 

São João Crisóstomo faz a sua interpretação de dessas palavras: Entende-se por reino de Deus aquele em que Deus reina; Isto é nas regiões dos vivos, quando se vive nas boas promessas de ver Deus face a face. Essa região pode ser entendida quer pelo amor, quer por alguma outra prova daqueles que carregam a imagem divina. Isto é entendido pelos céus. É, portanto, muito claro que o reino de Deus não está confinado a nenhum lugar ou tempo.

Mas o que, de fato, é o Reino de Deus?

Muitos teólogos e estudiosos da Biblia tentam empregar o Reino à Igreja, porém essa não é a melhor interpretação, pois ainda que a Igreja seja universal e espiritual, existem alguns dados que a ponem, de certa forma, em um limite inferior ao Reino. O mais correto seria pensar que a Igreja é o coração do Reino. O Reino existe nela e através dela se expande para além de sua catolicidade.

O Reino de Deus é superior ao espaço e ao tempo, e também os tem como parte de si. O Reino de Deus é mais que espaço, mas também atua no espaço. É superior ao tempo, porém sua ação se manifesta na história.

Este Reino é ao mesmo tempo infinito e tão pequeno como o coração da pessoa que suporta Deus, pois de fato aquilo que o Universo não pode conter em si, uma única pessoa é capaz de levar na alma.

Em uma carta escrita por Santa Clara a sua irmã Inês, podemos ler de forma objetiva o que significa trazer o Reino de Deus ao coração. O céu e a terra não foram capazes de guardar em si mesmo a majestade divina, dado que o Filho baixou do céu para se fazer carne humana, mas voltou para ele como homem glorioso. No entanto, toda pessoa é capaz de ter em si, esse Deus que céus e terras não suportam. A Humanidade é de fato, sem exagero e sem romantismos, o lugar onde reina o Deus que insistentemente busca espaço para reinar.

Jonas 3,1-5.10

A insistência do Senhor para reinar em nossas almas sempre terá efeitos, não somente em nossas vidas, como na vida de outros, sobre tudo daqueles que escutam a palavra e podem ver o nosso testemunho. Jonas é a figura de conversão pessoal que arrasta consigo outras conversões. O que para ele parecia impossível, acontece, de fato os ninivitas ouviram suas palavras e lhe deram atenção. Jonas tinha medo de pregar, porque em aquele momento Nínive era capital de Assíria, seu exército estava se expandindo, por isso nem Jonas acreditadava que a cidade pudesse ser atacada, mas a confiança que o profeta tinha em Deus o fez levar a mensagem divina.

A leitura diz que 3 dias eram suficientes para andar em toda Nínive, porém a pregação de Jonas se deu em apena um dia. É provavel que, como dizem alguns teólogos, o profeta se encontrou primeiramente com alguma autoridade local e anunciou a mensagem do Senhor. Levar e, consideração que a figura do profeta no Antigo Testamento era tido como uma espécie de diplomata que estava para representar a Deus, nos faz ter uma ideia dos motivos que levaram essas autoridades a acreditar na mensagem. Dado estas informações, os teólogos afirma que as autoridades locais fizeram eco das palavras do profeta, de modo que todos na cidade fizessem a penitência e o jejum pregado por Jonas.

A conversão dos ninivitas serviu incluso de exemplo na pregação de Jesus, no convite à conversão e no anuncio de sua morte e ressurreição (Mt 12,40). Pelas palavras de Cristo, Jonas é apresentado como figura de Cristo morto e ressucitado, de tal forma que assim como Jonas esteve 3 dias na escuridão, engolido por uma baleia, Cristo permaneceu por 3 dias na escuridão da morte.

Sl 24,4ab-5ab.6-7bc.8-9 

Mostrai-me ó Senhor vosso caminho”  é a suplica do salmo deste III domingo do tempo comum. Estamos em dias em que a liturgía nos conduz ao seguimento de Cristo, como os discípulos André e Pedro, Tiago e João que deixaram suas coisas para estar com Jesus, y como Jonas, para enviar a mensagem do Senhor ao povo de Nínive. O caminho por tanto não é outro, se não fazer a vontade de Deus revelada por Cristo. De fato, o caminho é o mesmo Verbo encarnado que convida a caminhar atrás dele, porque a frente vai o mestre  que ensina o trajeto e conduz à verdade que os homens rechaçaram. Por este rechaço, os homens dependem por completo da ternura de Deus, que julga segundo sua misericórdia e não conforme o pecado cometido.

Cabe, portanto, a cada um de nós, refletir não somente os pecados que cometemos, como também o perdão que oferecemos, pois o Cristo que mostra o caminho é o mesmo caminho que nos indica, pelo seu testemunho, o modo de atuar com os demais. É preciso que tenhamos a mesma atitude de misericórdia com aqueles que nos ofendem, para que possamos receber a justa misericórdia do Senhor e tornar-nos lugar onde Deus reina.

1° Coríntios 7,29-31

O câmbio de atitudes que devemos tomar não pode ser uma ideia de desenvolvimento pessoal e muitos menos uma pregação hipócrita, mas uma atitude necessaria para o agora. Ser misericordioso com os demais não deve ser um projeto, mas uma ação imediata e contínua. 

Na segunda leitura, Paulo diz à comunidade de Corinto que o tempo está abreviado e que as coisas de Deus devem ser prioridade na vida daquele que é chamado à santidade, ou seja, todo cristão. A afirmação de curto prazo de Paulo não se refere somente ao dia da segunda vinda de Jesus, mas também da sua permanência entre os homens. De fato Cristo vive em cada um dos batizados e deve ser visto pelos demais.

O caminho de Cristo, na sociedade não é apenas o Cristo em pessoa, mas também o cristão que se mostra ao mundo como caminho para Cristo.

A conhecida frase de São Francisco, toma força na liturgía de hoje, pois se vamos evangelizar, devemos usar palavras somente se necessário. Segundo relata um dos biógrafos do santo de Assis, um dia Francisco chamou a um de seus irmãos a pregar o Evangelho, sairam a caminhar pela cidade e regressaram ao convento. O frade sem entender nada, pergunta a São Francisco

– Padre, não íamos pregar o Evangelho?

E São Francisco responde: – já pregamos.

Francisco tinha claro uma coisa, a vida de quem segue a Jesus se torna caminho para aqueles que o vêm. O Deus que reina no coração humano, se mostra visível no rosto de todo aquele que se permite dar lugar para Deus reinar. 

Que a cada dia, em todas as nossas relações, possamos expresar o Reino divino em nossas palavras e ações a serviço de Deus, da Igreja e dos homens.

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