
O Mistério da Igreja
Com o título O Mistério da Igreja, o Concílio Vaticano II apresenta a Igreja como sinal e instrumento de união com Deus e com os homens, propondo precisamente a sua natureza e missão universal, de acordo com a linguagem e as necessidades do tempo. Para tanto, utiliza os dados presentes no Antigo Testamento que servem de figura para apontar a aliança entre Deus e os homens, manifestada hoje através da mediação visível da Igreja.
História
Ao contrário do primeiro milênio, em que se discutiam questões dogmáticas relativas à fé nos elementos internos do cristianismo, o desenvolvimento da eclesiologia tornou-se fortemente necessário nos últimos séculos, uma vez que não havia uma definição clara do ser e da obra da Igreja. Bruno Forte, apresenta na obra Igreja Ícone da Trindade, algumas das motivações que levaram à melhor estruturação da eclesiologia conciliar. Na Idade Média gerou-se um duplo problema a ser resolvido, por um lado, o papel histórico-político assumido pela Igreja, especialmente na sua hierarquia, e a necessidade de distinção entre o Corpo Eucarístico de Cristo e o Corpo místico de Cristo. O século XIX, por sua vez, manteve a ideia da igreja como Societas Perfectas e contra o modernismo foram apresentadas as prerrogativas da igreja docente. Por fim, as guerras do século XX geraram desconfiança entre os homens em relação às instituições. Assim, a Igreja vê nisso a necessidade de se apresentar a partir de sua essência.
Fundamentos Teológicos
Tendo em vista estes dados históricos, as reflexões eclesiológicas de J.A Möler, A. Rosmini e da Escola Romana do século XIX sobre uma igreja já proposta por São Paulo como mistério, teve forte influência às conclusões conciliares sobre o próprio ser da Igreja. Parecia faltar argumentos espirituais, que por sua vez já estavam presentes nas práxis dos fiéis, como se pode verificar no Movimento Litúrgico, na valorização da adoração eucarística, na retomada dos estudos bíblico-patrísticas e numa participação mais ativa dos leigos.
Magistério
Esses fatos corroboraram para que a eclesiologia do Vaticano II se apresentasse como grande novidade, mas seus fundamentos baseiam-se no esforço teológico produzido ao longo dos séculos. É verdade que os Santos Padres não dedicaram escritos sobre o assunto, mas viveram-no e celebraram-no, também na escolástica, não se pode notar algum tratado sobre a Igreja, mas foram claros quanto ao seu papel fundamental na continuação da missão de Cristo. É Santiago de Viterbo (1255-1308) quem escreve o considerado primeiro tratado de eclesiologia, denominado De regimine christiano, depois Egidio Romani (1243-1316) com uma postura profundamente papal, seguido de outros que ao longo do século XIV-XV apresentam a Igreja como sociedade puramente espiritual. Contudo, a Mystici Corporis (1943) do Papa Pio XII, se apresenta com maior força por parte do Magistério, afim de esclarecer os problemas causados pela confusão sobre o conceito eclesiológico do Corpo Místico de Cristo, reduzindo a Igreja apenas voltada para o seu interior, invisível na sociedade. Isto não quer dizer que este conceito seja equivocado, porém não responde ao ser da Igreja em relação ao mundo externo.
Reflexões Posteriores
Diante desta eclesiologia, percebe-se a necessidade de uma atualização pós-conciliar, a Igreja se percebe como Corpo Místico e ao mesmo tempo como Povo de Deus. A Carta Apostólica Apostolos suos (1998) e a Exortação Apostólica Pastores gregis (2003) afirmam a prioridade da Igreja universal sobre as Igrejas locais. A Declaração ecuménica Dominus Iesus (2008), sublinha que a Igreja Católica é continuadora do plano salvífico de Cristo. O Documento da Aparecida, por sua vez, propõe que o Povo de Deus desempenhe um papel ativo no projeto missionário da Igreja, reforçado pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudim. Esta definição é provavelmente a mais adequada ao se tratar de definir a Igreja por algum término, pois como vimos, possui um carácter enraizado na economia da salvação.