
O dia litúrgico da festa do Batismo do Senhor depende do dia em que se celebra a Epifania, este ano celebramos na segunda-feira.
O batismo de crianças
Sem dúvida, um dos temas que hoje geram confusão sobre o Sacramento do Batismo refere-se ao Batismo das Crianças, seja pela ideia protestante ou pelo relativismo religioso. Os protestantes afirmam que é um erro batizar crianças, porque Jesus se fez batizar quando adulto e os relativistas não acreditam na necessidade do batismo, preferindo deixar que esta seja uma decisão pessoal dos seus filhos.
Ambos não levam em consideração o pecado original, nem os efeitos do batismo. Através do batismo nos tornamos filhos de Deus, entramos na comunidade cristã, somos habitados pelo Espírito e nossos pecados são perdoados. Sobre este último ponto, deve-se esclarecer que o pecado original foi transmitido a todos os homens (exceto à Virgem Maria e consequentemente ao seu Filho), desde o momento de sua concepção, portanto, se os pais amam seus filhos, sabem que foram gerados com o pecado original e se reconhecem a eficácia do batismo para o perdão dos pecados, o batismo é uma consequência lógica. Cipriano diz que o batismo é direito de todos os homens, portanto não se pode negá-lo a ninguém e Orígenes é quem afirma a necessidade de ser batizado por causa do pecado original.
Devemos lembrar que o batismo é parte do processo de Iniciação Cristã, todos aqueles que são batizados, se batizam para ingressar na comunidade evangélica. Mas Jesus sendo judeu, em sua infância realizou seu processo de iniciação a religião a qual pertencia. Para os judeus este processo ocorre através da circuncisão e não do batismo. João batizou para a conversão do coração, não para iniciar a vida comunitária. A iniciação religiosa de Cristo também ocorreu em sua formação.
Marcos 1:7-11
A liturgia de hoje nos apresenta a história do batismo de Jesus, segundo o evangelho de São Marcos. O evangelista começa o seu Evangelho falando do batismo de João. A função deste batismo era a conversão para o perdão dos pecados, não como entrada em um mistério trinitário. O banho representa a limpeza, como efeito natural da água, tudo que passa pela água é limpo. Porém, João reconhece que este batismo não é suficiente, por isso diz que alguém mais forte do que ele viria batizar com o Espírito. Mas antes que os outros fossem batizados, era necessário que o próprio Cristo também o fosse, para que o batismo se tornasse um ato de imitatio Cristi. Em Jesus, o batismo ganha um novo significado, os elementos do seu batismo se repetem em todos os cristãos.
A partir Dele, quem batiza sofre uma mudança em seu próprio ser. O batizado não é mais um penitente, mas um filho de Deus, surge uma relação que interfere completamente na vida do homem. São Marcos diz que o céu foi aberto para Jesus. Tal como no Jordao, o céu se abre a todos os batizados, criando uma relação transcendente. Isto acontece sob a influência do Espírito Santo que atua também sobre o cristão para que ele compartilhe a filiação divina e seja missionário, levando a mensagem do Reino e fazendo a vontade do Pai.
O batismo de João é diferente do batismo que recebemos. São Tomás de Aquino, na sua teologia batismal, diz que somos purificados pela água no batismo porque Cristo purificou a água no momento do seu batismo. Com o banho nos tornamos novas criaturas, deixamos o homem velho e pecador para nos tornarmos santos e justificados por Cristo, por isso se diz que ser batizado é entrar no Mistério Pascal, porque assim como a paixão e morte de Nosso Senhor perdoa os nossos pecados, o batismo também.
Isaías 42:1-4.6-7
A primeira leitura nos apresenta o Servo sofredor de Isaías, que a teologia utiliza como figura de Cristo, quer no seu mistério pascal, quer no seu baptismo, pois as palavras “meu Servo” e “meu Filho” são semelhantes. O Espírito do Senhor aparece sobre Jesus em forma de pomba, enquanto o Senhor diz que enviará o seu Espírito sobre o Servo Sofredor. Servo, Filho e sofrimento são termos que comumente se referem ao Verbo Encarnado. A ação do Espírito confirma a missão de Jesus: “promover o julgamento das nações” ou “ser luz”. É de grande necessidade notar que a missão está intimamente ligada à recepção do Espírito Santo. A ação missionária do Servo e a de Cristo só começa em comunhão com o Espírito.
O capítulo 42 de Isaías, que fala deste servo sofredor, tem uma dupla interpretação teológica. Uma que associa o Servo a Cristo, usada por São Mateus no seu Evangelho sobre Jesus Cristo (12,18). Porém, há alguns teólogos que, sem diminuir a reflexão cristológica do profeta, preferem utilizar a interpretação alegórica para se referir a Israel, o Povo escolhido por Deus, mas sofrido, desfigurado pelo exílio.
Contudo, ambas as interpretações são unânimes em afirmar a necessidade do Espírito para a missão da fé. É somente pelo Espírito que se torna filho ou Servo do Senhor.
Sl 28,1a.2.3ac-4.3b.9b-10
O salmista também apresenta um texto de simbologia batismal. Filho, voz, águas, fieis e dilúvio são exatamente elementos batismais.
Os Comentários de Santo Agostinho sobre este salmo apresentam algumas características particulares de alguns termos, como no caso do tributo ao Senhor, que nada mais é que o mesmo homem que se entrega inteiramente ao Senhor. A glória devida ao Santíssimo Nome do Senhor é torná-lo conhecido em todo o mundo e isso leva ao mandato do próprio Cristo a todos os cristãos “pregar o Evangelho e batizar”.
Atos 10:34-38
Através do batismo, acontece com a pessoa humana o que a teologia chama de Inhabitação Trinitária. O batizado torna-se canal da graça divina, morada de Deus, mas que é dada pelo Espírito Santo. É a Terceira Pessoa da Trindade que dispõe cada um de nós para a recepção do divino no humano. Embora se saiba que a ação trinitária é sempre em comunhão, o que uma Pessoa da Santíssima Trindade fazem as demais pessoas, mas existem propriedades específicas de cada pessoa, como funções que comunicam as ações divinas. Conhecemos Deus Pai como aquele que cria, o Filho como aquele que salva e o Espírito como aquele que santifica. Por este terceiro somos santificados no batismo. Na verdade, a palavra “santo” significa “separado”, alguém distinto dos demais, e o batismo distingue o cristão dos demais humanos, a graça divina atua sobre o neófito. O cristão não é apenas criatura do Pai, mas é também filho por meio do Filho com a ação do Espírito Santo. O mesmo Espírito que desceu sobre Jesus no Jordão também desce sobre todos nós no momento do batismo.
O que dizemos sobre ser missionário sob a ação do Espírito Santo depois do batismo, diz São Lucas na segunda leitura de hoje: Refiro-me a Jesus de Nazaré, ungido por Deus com a força do Espírito Santo, que andou fazendo o bem e cura para todos os oprimidos do diabo, porque Deus estava com ele.
Nesta Festa do Batismo do Senhor, tomemos consciência do nosso batismo, permitamos e procuremos viver como verdadeiros cristãos, transformados pelo Espírito.