
Todo primeiro dia de cada ano, a Igreja celebra a solenidade de Maria, Mãe Deus, proclamado como o primeiro dogma mariano no ano 421 pelo Concílio de Éfeso.
Para compreender a proclamação deste dogma, devemos ter em conta que o reconhecimento de Maria como mãe de Deus era costume entre os cristãos dos primeiros séculos. A oração Presidium Sub tuum dizia: “Sob sua proteção nos refugiamos, Santa Mãe de Deus” é como rezavam os fiéis.
A necessidade de declarar o dogma surgiu a partir das heresias de Nestóreo (século V), ao questionar o valor do título de “Mãe de Deus”. Este problema não é apenas mariano, mas também cristológico, pois o herege considerava que Maria só poderia ser a mãe do Jesus histórico, o homem nascido em Belém, não a mãe de Deus. Contudo, o Verbo encarnado é verdadeiramente Homem e Deus. Com a Encarnação não há dois Jesus, mas apenas um que assumiu a carne humana.
A Virgem não é reconhecida como Mãe de Deus por méritos próprios ou para acrescentar algo à sua veneração, mas reconhecê-la como tal é afirmar que Aquele que veio do seu ventre é verdadeiramente Deus.
Lucas 2, 16-21
A situação dos pastores confirma esta verdade, todos ansiavam pelo nascimento do Messias anunciado pelo anjo. Não podiam esperar mais um segundo, o que já era esperado há muitos séculos. Deus se encarnou no ventre de uma mulher, Deus filho de uma mulher, por obra do Espírito Santo.
Várias culturas possuem histórias semelhantes a essas, mas com um Deus, vítima de suas paixões, uma mulher humana e um filho semideus. O grande exemplo da religião da Grécia Antiga é Zeus, pai de muitos semideuses mortais, mas superior aos homens. Cristo é o único Deus verdadeiro, encarnado no ventre de uma mulher, para que todos os filhos de mulheres se tornassem deuses Nele. A corporeidade da Encarnação não diminui o Verbo, mas eleva o homem.
No nascimento do Menino Jesus, não vemos uma nova criatura ou uma espécie de deus que existe a partir de um momento, o que se vê é o verdadeiro Verbo de Deus assumindo a carne humana, aquele que sempre existiu na eternidade, assumiu para si mesmo um corpo temporário, sem deixar de ser Deus. Não é o resultado de uma união entre uma divindade e um humano, é o próprio Deus assumindo a carne de sua mãe. O artista criou um molde no qual Ele se encaixasse, mantendo-a livre do pecado original para que Ele também pudesse nascer de uma mãe pura. No comentário deste evangelho, Santo Ambrósio diz: Pois quando se vê a carne do Senhor, se vê o Verbo que é seu Filho.
Números 6, 22-27
A primeira leitura apresenta-nos uma bênção ao povo de Israel, obediente e já consagrado ao Senhor. Segundo a tradição franciscana, esta foi a bênção concedida por São Francisco de Assis ao Irmão Leão. E está dividido em seis partes:
1 – O Senhor te abençoe: a bênção divina tem caráter relacionado à fidelidade. Se o homem já havia pecado e merecido a expulsão do Éden, pela sua fidelidade merece ser abençoado com as promessas feitas a Abraão: fertilidade, terra e o Messias;
2 – e te guarde: o significado de guardar refere-se à constância no cumprimento do pacto da aliança, a bênção é um apelo para que Deus mantenha o homem fiel;
3 – ilumine seu rosto sobre você: o rosto de Deus significa sua presença, sobre aquele que recebe a bênção;
4 – e conceda-lhe o seu favor: o favor de Deus aos homens é consequência da sua complacência, é desejo do próprio Deus conceder os seus favores;
5 – O Senhor mostra-te a sua face: neste pedido a súplica permite que o Senhor se dê a conhecer, mas não a ninguém, mas ao seu povo escolhido;
6 – e te conceda a paz: do ponto de vista histórico, esta paz é o oposto da guerra, constante no contexto do Antigo Testamento, mas muitos interpretaram esta paz como o próprio Cristo, o Príncipe da Paz.
O texto apresenta duas vezes o termo rosto, para indicar uma relação profunda entre Deus e o seu Povo, não se trata de um Deus distante, mas do Deus que quer comunicar, quer estar próximo e esta proximidade torna-se plena por meio do ventre de Maria, o maior desejo de Deus é comunicar-se com os homens e ele o fez através de uma Virgen.
Salmo 66, 2-3.5.6.8
O salmo repete a bênção, mas na terceira pessoa. A bênção não é para o “tu”, mas para nós, o sucedido em Maria exige a mudança da aliança. Do sacrifício imperfeito ao sacrifício mais que perfeito, do Velho ao Novo Homem, de Israel a todas as nações. O lugar de atuação de Deus é agora universal, a sua bênção alcança todos os povos.
Segundo a mentalidade humana, é quase impossível encontrar as bênçãos na vida da Mãe de Deus e também na de muitas outras pessoas, inclusive na nossa. A vida da Virgem foi marcada por perseguições, dores e sofrimentos que outro ser humano não suportaria. Ademais, as pessoas que machucam, que perseguem, que são más, parecem ser protegidas ou amadas por Deus.
O fato é que Deus também abençoa os ímpios com as mesmas bênçãos temporais com que abençoa os bons. Os maus e os bons têm saúde, inteligência, habilidades e outros dons temporários, porque Deus não escolhe a quem abençoar, mas dá esses bens efêmeros a todos. Existem pessoas boas e más com poucos dons e há pessoas boas e más que têm muitos dons. Mas nem todos os bens que Deus concede aos bons, dá aos maus.
Os bons são iluminados pelo rosto de Deus, configurados e conduzidos à perfeição pessoal, porque se assemelham ao modelo original da sua imagem. O homem é imago Dei e, na medida em que é iluminado pelo rosto de Deus, torna-se mais semelhante a Ele.
O homem semelhante ao seu criador conhece o caminho que leva à salvação e sabe que “caminho” e “salvação” se confundem, pois um é igual ao outro, ambos são o mesmo Cristo.
O mesmo de Belém e de Cuba, do Norte e do Sul do mundo, o mesmo Cristo é o caminho e a salvação que se encarnou no ventre da Virgem para fazer com que todos os homens, de todos os tempos e de todos os lugares recebam as bênçãos divinas.
Gálatas 4, 4-7
Não só a bênção, mas também uma filiação divina e humana. Por meio de Cristo somos filhos da Virgem e do Pai, porque ao assumir a nossa natureza, ele fez com que os homens tivessem algo igual a Deus. Todos aqueles que possuem a mesma matéria temporal do Filho são, portanto, neste sentido iguais ao Filho, assim recebemos a filiação adotiva, não como a do Filho que possui a mesma substância do Pai, porque é o único engedrado.
Com Cristo, Deus não é a figura distante da humanidade, não é o Senhor que julga duramente os pecadores, mas o Deus que recebeu um sacrifício perfeito, sem mancha e que, portanto, não encontra barreiras para se aproximar do homem e tratá-lo com intimidade.
É por isso que dizemos “Abba, pai!” O termo pode mudar a tradução do hebraico segundo alguns teólogos, mas sem modificar o significado familiar. É comum ouvir que esse termo tem o significado de “papai” como dizem os filhos, carinhosamente aos pais, mas há quem afirme, e é como eu pessoalmente entendo, o “Abba, pai!” como expressão utilizada por membros de uma família, independentemente da idade. Nesse sentido, o “Abba, pai” é a mesma figura para a mãe e para os filhos. É como um apelido de família. Ou ainda, como afirma São João Crisóstomo, dizendo que o termo é usado pelos filhos legítimos de um pai.
A bênção da segunda leitura é a adoção filial, o homem não é mais escravo, mas é filho de Deus Pai. Somos, portanto, filhos por meio de Cristo, temos Nele um Pai e uma mãe.