Sagrada Familia

Celebramos a festa da Sagrada Família, sempre no domingo seguinte ao nascimento do Menino Jesus, ou no dia 30 se não houver outro domingo depois do dia 25.

Lucas 2, 22-40

O evangelista Lucas narra a saída da família ao templo, para purificação, segundo os costumes dos judeus, prescritos na lei de Moisés. O mistério da Sagrada Família torna-se beleza quando olhamos para a realidade em que estão envolvidos Jesus, Maria e José. O Verbo não se torna apenas homem, os seus pais não só dizem sim a Deus, mas vivem como vivem os homens, para indicar que a salvação lhes foi dada.

E a salvação que veio através de uma família pobre, para confundir os ricos do mundo. A lei dizia que todos os primogênitos deveriam ser doados ao Senhor, homens ou animais, mas no lugar dos filhos se oferecia um cordeiro. Aos pobres, que não tinham condições de oferecer o cordeiro, ofereciam um par de rolas ou duas pombas. A Família de Nazaré viveu na pobreza como vivem os favoritos do Senhor.

Se pudéssemos olhar com fé sincera para esta família contemplada pelo Simeão, talvez o melhor a dizer fosse: oxalá, se também nós pudéssemos ter o desejo de ver esta família como Simeão e tantos outros homens de Deus esperaram, em diferentes momentos.

São Gregório Magno diz que podemos compreender, a partir do testemunho de Simeão, o desejo dos homens santos e justos e dos profetas do Antigo Testamento que queriam ver o mistério da Encarnação, não apenas para receber a libertação, mas para ver a Palavra do Senhor, cumprida e manifestada entre os homens. A isto acrescenta São Gregório de Niceno, dizendo: Quão abençoada foi esta santa entrada no templo sagrado, pela qual avançou até ao fim da sua vida. Benditas mãos que tocaram a Palavra da vida, e bem-aventurados também aqueles que O receberam.

E Orígenes interpreta o fato sob a ação do Espírito Santo sobre os homens, pois só quem se deixa guiar pelo Espírito pode ter Jesus nos braços: E você, se quiser possuir Jesus e abraçá-lo, deve cuidar com todas as suas forças para ter sempre o Espírito Santo como seu guia e ir ao templo do Senhor. E continua: “E quando chegaram seus pais com o menino Jesus (isto é, sua mãe Maria e José, que se acreditava ser seu pai) para praticar com ele o que estava prescrito pela lei, Simeão o tomou em seus braços.” . E ainda: “Se só ao tocar na orla do vestido de Jesus aquela mulher ficou curada, que julgaremos de Simeão, que recebeu o menino Jesus nos braços, e se alegrou assim por ter aquele que viera libertar os cativos, sabendo que ninguém poderia libertá-lo da prisão do corpo com a esperança da vida eterna, exceto Aquele que ele segurava nos braços? É por isso que se diz: “E ele suplicou a Deus, dizendo: Agora, Senhor, drixai teu servo ir em paz”.

A Sagrada Família é também para todos nós, sem exceção, o modelo de família santa, da qual nascem todas as vocações. O amor e a dedicação que se percebe em Jesus, Maria e José devem ser o objetivo de vida em todos os lares. O Menino Jesus, mesmo sendo Deus, colocou-se aos cuidados de seus pais, obedecendo-lhes em tudo, a Virgem cuidou de seu Filho com todo amor e carinho, dando-lhe atenção e alimentando-o, São José é o modelo de pai, homem providente e protetor, que amou sua família, dedicando todas as suas energias ao cuidado de Maria e do Menino.

Gn 15, 1-6; 21:1-3

A liturgia da Festa da Sagrada Família nos apresenta duas opções de primeira leitura. A primeira do livro dos Eclesiásticos (3, 2-6.12-14), onde encontramos o valor que Deus dá à família e especialmente ao tratamento respeitoso dos filhos para com os pais. Quem honra o pai agrada ao Senhor, pois o pai terreno é representante do Pai celestial. Aquele que não consegue honrar o pai visível nunca o fará com aquele que não consegue ver com olhos humanos. Para Deus, o bom tratamento dos pais é tão importante que ao ponto de perdoar os pecados dos filhos.

A segunda opção de leitura se encontra em Gênesis e fala dos favores de Deus às famílias, nesse caso podemos ler a passagem onde Deus realiza um milagre na vida de Sara, esposa de Abraão. O fato interessante nesta passagem é a função da família para a salvação. Todas as vocações devem ser destinadas à santidade, ao louvor de Deus que ocorreu e continua a ocorrer na história. Através do milagre feito a Sara, a mulher estéril, a Salvação chegou até nós. Isaac não é apenas uma figura do Cristo sacrificado no Antigo Testamento, mas também a origem dos escolhidos do Senhor. Através dele Deus age no mundo, a geração dos filhos de Isaac está a serviço de Deus. A função da família é levar adiante a mensagem salvadora. É assim que as famílias cristãs devem agir, sendo o lugar onde Deus se comunica com o mundo. A família deve ser testemunho da ação divina na sociedade, não importa o número de seus membros, o núcleo familiar é sinal de amor. 

Em muitos casos, os casais sofrem com a impossibilidade de gerar filhos, mas devem ter sempre presente  na memória que a sua cruz não os impede de gerar fé nas outras pessoas. O amor entre homem e mulher permanece e deve ser fortalecido. Estas famílias não param de transmitir o seu testemunho na Igreja, através dos seus serviços pastorais e sociais. A figura que assemelha o Matrimônio a Deus tem relação com a ação criadora, os cônjuges criam a vida como o Criador. Porém, nos casos em que não há possibilidade de criar vida, os cônjuges transmitem o mesmo Cristo, que é transmitido espiritualmente por meio da palavra,  isso é pregado. A palavra dos cônjuges deve ser a mesma Palavra divina, comunicada aos homens. Estes casais não criam, mas comunicam, e assemelham-se ao Pai na medida em que comunicam o Filho aos homens.

O milagre de Sara não teve benefícios exclusivos para ela, mas para toda a humanidade, é assim que se entende a ação divina em benefício de todos os homens. Deus não se curva às vaidades humanas, nem às suas vontades, sem que isso represente um bem. Através deste milagre iniciam-se as ações divinas na história da humanidade. A promessa feita a Abraão chegam até nós, pois através deste milagre, recebemos a comunicação divina em nossas vidas.

Olhando rapidamente para a resposta do patriarca, podemos pensar que é uma ironia ou desconfiança em Deus, quando diz: “Senhor, de que me servem os teus dons, se sou estéril”, porém, sua resposta é uma ação de humildade e sinceridade, pois reconhece que todas as graças são concedidas por Deus, por isso acrescenta: “Tu não me deste filhos”. Por isso ele diz “eu sou estéril”, a esterilidade de Abraão tem peso na medida em que está relacionada aos dons divinos, é como se ele dissesse que não tem capacidade de dar frutos, porém quando se refere à esses frutos, não se diz “não tenho filhos”, mas sim “Tu não me destes”, reconhecendo que a graça é concedida por Deus, por isso dizemos que tudo de bom que temos é graças a Deus, nosso é o pecado, que nos impede de produzir frutos de santidade.

Salmo 127, 1-2.3.4-5

As leituras nos conduzem a uma realidade fraterna mais ampla que o ambiente familiar. Este pequeno núcleo é o ponto de partida para a universalidade salvífica de Deus. A Sagrada Família é o lugar onde encarnou o Salvador de todos os homens, onde começou a Nova Aliança definitiva. A esterilidade de Sara representa a Antiga Aliança, com frutos imperfeitos. A comunicação divina torna fecunda a terra infértil, o velho homem torna-se novo com a manifestação do Filho.

O salmo parece uma ofensa a quem, por motivos diversos, não tem filhos, como se isso fosse um sinal de descontentamento de Deus, pois a bênção do homem que serve ao Senhor se manifesta com os filhos “como brotos de oliveira”. Seriam, portanto, amaldiçoados os estéreis involuntários? Certamente não, pois nem mesmo o pecado cometido pela vontade é capaz de limitar a ação salvífica de Deus.

É verdade que a cultura do Antigo Testamento via a esterilidade como maldição, em relação à bênção dos filhos e isso ocorreu por dois motivos: primeiro espiritual, para associar a promessa feita a Abrão e segundo temporal, porque o filhos mantém o nome do pai e cuida dos campos e dos animais. Mas, sem dúvida, os motivos espirituais superam os temporais, pois delineiam a salvação de todos os homens.

Portanto, é necessário pensar na leitura espiritual deste salmo. Santo Agostinho é da opinião de que a interpretação deste texto possui um forte mensagem espiritual, mais que histórico. Os filhos, segundo ele, são os apóstolos, filhos dos profetas. O santo utiliza as figuras do Salmo 126, dizendo que os apóstolos são como flechas nas mãos dos guerreiros. Esses guerreiros são um símbolo para designar os profetas. O significado ganha força ao considerar a função das lanças. Com as lanças o inimigo é atacado, assim como a fé era defendida com a pregação dos primeiros cristãos.

Col 3, 12-21

Outros elementos importantes desta liturgia podem ser encontrados na segunda leitura. No texto nota-se a exigência de virtudes para a boa relação entre os homens. A bondade, a humildade, a mansidão, a paciência, somadas ao perdão, são chaves para que o Menino da Sagrada Família nasça em nossos corações e coroe as virtudes com a mais perfeita de todas, a caridade, que é uma virtude teologal, portanto, um dom de Deus que podemos fazê-lo crescer exercitando-o. Ama mais quem deseja amar mais. E quem ama mais, mais se assemelha a Cristo. Num lar onde há amor, toda visita se sente acolhida e amada, o contrário também logo se nota.

 Não é necessário estudar grande psicologia ou antropologia para redonhecer um coração amargo, onde vivem a discórdia, a infelicidade, a ingratidão e outros males.

O texto litúrgico termina com palavras que chocam a sociedade atual. As “esposas, sejam submissas aos seus maridos, como convém ao Senhor”. A reflexão desta passagem bíblica não deve ter, de forma alguma, caráter ideológico. A imagem de submissão nas relações de trabalho, por exemplo, não cabe na relação familiar. Se se diz que o empregado do sexo masculino é submisso ao patrão, ele sabe que só é submisso no que diz respeito ao trabalho. O mesmo acontece no lar, que é regido por um nível de amor sem medidas relacionadas ao tratamento formal. A mulher deve ser submissa não em dignidade, mas em deixar-se cuidar pelo homem. A submissão aqui valoriza quem é protegido, não quem protege. As pedras preciosas são mais valorizadas do que o lugar onde estão guardadas e até mesmo do que as pessoas que as guardam. Os maridos são ordenados a tratar as suas esposas com amor, sem aspereza, como quem guarda uma pedra preciosa. A submissão depende do dócil ato de amor.

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