Como ser Deus

A gente jura que tem feito o trabalho direito, mas isso não é uma verdade. Nos iludimos crendo que Deus necessita de um fiscal na porta de entrada do paraíso. Dizemos: “isso é errado!”, “não faça assim”, “mude!”. Apontamos o dedo e tentamos diminuir a potência divina sobre todo o universo. E esquecemos de dizer: “vem comigo!”, e muito menos “me ensine”.

Um dia fui à Pascoa Jovem da Arquidiocese de La Habana e me dei conta do quanto tentamos limitar ou cristalizar Deus, como se Ele necessitasse de nossa proteção, ou como se nós tivéssemos autoridade para definir quem pode ou não estar diante d’Ele, ou qual a melhor maneira de se comportar. Deus não precisa que fiquemos às portas impondo como as coisas devem ser, mas que demos as boas vindas para quem estiver disposto a amar.

Você não pode exigir que o outro veja Deus com os mesmos olhos que você. É necessário apontar a direção. Amando sempre. Deus é deus de todo o universo, dos santos e dos pecadores, dos hipócritas e dos autênticos. Estamos às margens de vender a Deus, um curso de “Como ser Deus“.

Na última Jornada Mundial da Juventude, ganhou força as palavras do Santo Padre, quando dice que a Igreja é um lugar de todos, e repetiu todos para que não sobrasse dúvidas disso. De fato a Igreja é lugar de todos e não de tudo. O “todos” refere-se aos humanos e é impossível que Deus não se incline em direção a humanidade, porque assim Ele quer. Quem ama se inclina ao amado. 

Outro dia, enquanto eu estava sentado em um momento de adoração, com o Santíssimo exposto, entrou um senhor de idade, provavelmente nos seus 60 e algo, tão afeminado como uma adolescente do ensino médio. Encantado com a Virgem de Lourdes, se aproximou para fazer uma pequena oração, e continou caminhando pela capela. De repente fez uma cara de espanto e admiração, seu semblante não escondia o encanto pela Virgem das Dores, de tamanho original, vestida com um tecido negro e detalhes dourados. Ao lado da imagem estava o busto de Cristo de Límpias, o homem olhou para o Cristo, como quem diria: espera um momento que estou ocupado. E simplesmente ignorou tudo o que estava ao redor para venerar a Virgem. Eu sorri, olhei para o Senhor na Eucaristia e disse: tenho uma formação religiosa incomparávelmente maior que a desse senhor, mas a certeza de que entre eu que olho para Ti e ele que Te ignora, Tu escolherias ele, pela liberdade de venerar tua Santíssima Mãe e pela inocência religiosa que tem.

Eu nao mentiria para mim mesmo, dizendo que naquele momento estava rezando, não estava. Eu estava atento ao comportamento do outro, nem rezando a Maria, nem adorando ao Senhor. 

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