Noite de Natal – Ano B

Verbum caro factum est.

Verdadeiramente, o Verbo Divino tornou-se carne humana. A maior prova de amor à humanidade, a mais bela história contada no mundo, é de fato o amor verdadeira e autentico. Tão grande que o amor de uma mãe por seu filho nos pareceria estúpido. Se pudéssemos contar as estrelas do céu, saber a quantidade de grãos de areia que há em todas as praias do mundo, ainda não conseguiríamos chegar perto do tamanho do amor que Deus tem pelos homens. A Encarnação do Verbo é prova de um amor incomensurável.

 Um dia, na catequese , perguntei às crianças: “Se vocês fossem deuses, desejariam descer do céu para viver com os humanos? ” Bem, certamente a resposta foi NÃO. Mas perguntei-lhes novamente: “Se vocês fossem deuses e conhecessem e amassem um ser humano, vocês pensariam em descer?” A resposta mudou claramente, porque o amor move o amante em direção ao amado. O amante divino não ama apenas um ser humano amado, mas ama todos os humanos. Aqui está o verdadeiro motivo da Encarnação do Verbo: a Segunda Pessoa da Trindade se aproximou dos homens porque os ama.

Falar da Encarnação do Verbo só pode fazer sentido numa dimensão trinitária. A máxima teológica “Quando Deus age, age sempre em Trindade” manifesta-se mais perfeitamente no mistério da Encarnação. O Filho encarna, mas só o faz porque o Pai envia o Filho e o Espírito Santo para que se comuniquem. Na verdade, ele não apenas se tornou homem, mas também se encarnou na humanidade.

Deus, desejando comunicar-se à humanidade, dar-se a conhecer, rebaixou-se não só na carne, mas também no modo como se comunicava. Deus desceu através da Palavra, porque a palavra é o meio de comunicação humana. Aquele que sempre esteve com Deus e é uma expressão de Deus, desceu.

No princípio era o Verbo, o Verbo era Deus e estava com Deus (cf. João 1:1). A Sagrada Escritura representa a figura do Filho através do Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade é o modo de comunicação do Pai. Quando Deus disse “faça-se”, tudo foi feito através da Palavra. O “Disse Deus” é referente ao Filho, porque a Palavra de Deus é para comunicar-se aos homens. A Encarnação do Verbo é a Palavra perfeita de Deus, não uma ideia ou fantasia, na verdade o Verbo foi Encarnado. O nascimento do Filho é o Pai declarando seu amor aos homens através da Palavra. Comunicar é dar-se a conhecer e justamente por isso o Filho se dedica a falar do Pai, porque o Pai o enviou, o Pai está no céu, o Pai ama os seus Filhos, “quem me vê, vê o Pai.”. O Filho é Deus dando-se a conhecer aos homens.

São Boaventura, na sua teologia trinitária, coloca o Verbo no centro da relação de Deus consigo mesmo e com a criatura. Se Deus se apresenta aos homens revelando-se através da sua Palavra, ele também se comunica através da sua Palavra. O Verbo na criação é o homem que se encarnou no ventre da Virgem Maria, na Trindade é a voz que fala de si mesmo ao Pai. Quando a pessoa humana fala de si para si mesma, faz a partir de si mesmo, do seu interior. A Palavra que alguém diz a si mesmo está intimamente intrínseca a si mesmo, mas não é a pessoa mesmo. Assim como o pensamento do homem é do homem, mas não o homem. O pensamento se transforma em Palavra para se comunicar com o outro. Quando Deus fala, é o Filho falando com o próprio Pai.

Lc 2,1-14

A Encarnação do Verbo ocorreu no tempo e no espaço. Seu nascimento é narrado por São Lucas na época do censo ordenado pelo imperador Augusto numa cidade chamada Belém. Deus realmente se tornou carne para estar conosco. Mas não se apegou às pompas do mundo, deitou-se, pela primeira vez, numa manjedoura, como que para servir de alimento. Sendo Deus, tornou-se pobre para abraçar  a todos os homens. A pobreza da manjedoura afirma a Universalidade da Redenção. O Evangelho desta missa da véspera de Natal apresenta-nos um censo que parece desligado do Evangelho, mas dois detalhes são importantes e têm ligações diretas com Cristo.

A primeira diz-nos Beda, o venerável: o nascimento de Jesus aconteceu num tempo de paz, onde existe um único poder universal, sem histórias de guerra. Augusto conseguiu reinar por 12 anos sem conflitos. Definitivamente há paz. O segundo ponto de universalidade que dissemos, o censo foi para o mundo inteiro, como também nasceu o Verbo, para o amor e para a salvação de todos, sem distinção.

O Rei mais poderoso do universo colocou-se no lugar dos pobres, ao rebaixar-se alcançou todas as esferas sociais, de alto a baixo. Ele era adorado por pastores. João Crisóstomo diz: “O anjo não foi a Jerusalém, nem procurou os escribas e fariseus, porque Eles eram corruptos e atormentados pela inveja. Mas os pastores eram simples e observavam a antiga lei dos patriarcas e de Moisés.” O Anjo anuncia a chegada do Messias à terra de David, com ele um coro celestial louva o Menino deitado na manjedoura.

Em relação aos pastores, São Gregório Magno faz uma bela relação com o rebanho de Cristo, assim como o Anjo aparece aos pastores que vigiavam as ovelhas à noite, assim acontece com os pastores que são fiéis ao rebanho que Cristo lhes confia, a luz divina os alcança.

Ef 9,1-3,5-6

A primeira leitura fala-nos de uma mudança positiva na vida de uma cidade. Para entender, voltamos ao capítulo 7 do livro de Isaías. Neste capítulo, Acaz, rei de Judá, é ameaçado pelos reinos da Síria e de Israel. A ideia desses reis era invadir Judá, e depois conquistar a Assíria. Neste acontecimento, o profeta Isaías se aproxima do rei Acaz para dizer que não há motivo para preocupação, a confiança em Deus lhe bastaria. Então, como prova de que tudo daria certo, uma virgem teria um filho que seria chamado de “Deus conosco”, antes que essa criança aprendesse a distinguir o bem do mal, Israel e a Síria seriam destruídos por Assíria.

O capítulo 9 faz, então, um retorno histórico, referindo-se a Zebulom e Naftali como dois reinos que haviam sido invadidos pela Assíria, mas que logo puderam ver a luz do Senhor. Isso deveria servir como um sinal para Acaz confiar nas palavras do profeta. Pois bem, um povo que antes vivia nas trevas começou a ver uma grande luz, que trouxe alegria. Esta mudança é marcada por um grande sinal messiânico, um filho foi entregue a quem antes vivia nas trevas e com ele veio a transformação, a vida nova. Na verdade, para nós, o nascimento do Menino Jesus representa uma mudança de vida, mas real, não ideal. 

Com a Encarnação do Verbo, até os pagãos, que dizem não celebrar Cristo, fazem promessas de uma vida melhor. Os efeitos deste nascimento atingem moralmente até mesmo aqueles que não acreditam nele, mas vivem este momento de maneiras diferentes. Alguns caem em alegrias passageiras, como outrora o povo de Israel que, sem saber comemorar as maravilhas do Senhor, O traiu com outros deuses, ou aqueles que, vendo o Messias, não acreditaram. Assim acontece com as comemorações do Natal. Os cristãos costumam celebrar este dia com grande solenidade, e justamente por causa dessas celebrações dentro da Igreja, todos aqueles que se permitem passar por uma transformação interior também recebem graças, embora de forma imperfeita, mas é perceptível um desejo de mudanças, mesmo em ambientes externos a Igreja. A saída das trevas toca a todos e cada um recebe a luz, na medida que preparou para receber

Salmo 95:1-2a.2b-3.11-12.13

A mudança exige uma nova realidade interior, a saída das trevas para a luz faz com que o povo de Deus cante um novo cântico, não vivendo mais das coisas velhas, dos mesmos pecados, mas sim renovando as suas ações, por isso o salmista diz: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (Sl 95:1). O homem deve morrer, porque a sua nova vida encarnou. O homem que se separou de Deus no Antigo Testamento, agora se encontrava numa Nova Aliança através de Cristo. Ele mesmo é uma música nova.

Tt 2,11-14

A carta de Tito confirma as palavras do profeta Isaías no salmo. A salvação de Deus chegou, não apenas a um povo, mas está universalizada para alcançar o mundo inteiro. A salvação prometida ao povo de Israel foi recusada e foi dada a todos os homens da terra, “ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos, e a levar a partir de agora uma vida sóbria, honesta e religiosa” (Tt 2, 12).

Conclusão

A salvação realmente chegou até nós, o Verbo divino se fez carne para manifestar o seu amor. Estejamos, portanto, disponíveis para receber este Menino que se entrega a carregar as nossas limitações tornando-se um conosco.

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