
Por meio de uma Virgem nos vem o Salvador, a hora está chegando, o caminho anunciado por João Batista já deve estar preparado.
Evangelho: Lucas 1, 26-38
A liturgia o IV Domingo faz um retorno cronológico, não por acaso. Nos últimos domingos João Batista foi o centro do Evangelho, porém a leitura de hoje nos remete ao momento da Encarnação do Verbo no ventre da Virgem, prometida em casamento a José. Existe uma estreita ligação entre João e seu primo Jesus. É João quem desempenha o papel de fio condutor entre a Antiga e a Nova Aliança, razão pela qual, nos domingos seguintes, se ouviu o grito “Preparai o caminho do Senhor”. Chegamos ao último domingo do Advento, o que significa que o caminho está preparado para receber o Messias que encarnou no ventre da Virgem depois de um diálogo com o Anjo.
Na Recapitulação, como vimos na Solenidade da Imaculada Conceição, Santo Irineu apresenta a necessidade de Jesus nascer do ventre da Virgem. Por ser Deus poderia encarnar do nada, porém isso levaria a problemas ontológicos. Ele não poderia aparecer no mundo senão em carne humana, porque assim não seria um homem, mas uma nova criatura. Foi necessário também que nascesse um filho aos filhos de Adão para que o pecado daquele primeiro homem fosse pago por outro da mesma natureza. Ele sofreu os sofrimentos próprios dos homens.
Porém, diz o Padre Tanquerey em A Divinização do Sofrimento: O sofrimento é sempre do tamanho de quem é ofendido, nunca de quem ofende. Entende-se, portanto, a necessidade de repetir o sacrifício incruento de animais no Antigo Testamento por parte do pecador. Nem mesmo um homem seria suficiente para curar a ofensa feita à divindade. Somente Deus encarnado pode suportar o peso destas ofensas. E através de Maria ele encarnou para sofrer desde o seu nascimento, não só pelo Mistério Pascal, mas durante toda a sua vida.
Ele tomou para si a carne de uma mulher prometida em casamento a um homem e que através da obediência trouxe vida à humanidade, pois estávamos todos mortos por causa do pecado de outra mulher prometida a outro homem e que através da sua desobediência nos trouxe a morte. Diferente de Eva, Maria permaneceu virgem e concebeu o seu Filho por obra do Espírito, para que, como o primeiro homem, sem pai, pudesse pagar a sua dívida de forma justa.
A Teologia de Gregório de Nissa é semelhante ao dito por Irineu: Em contraste com a voz dirigida à primeira mulher, a palavra é agora dirigida à Virgem. No primeiro, a causa do pecado é punida com as dores do parto; no segundo, a tristeza é banida pela alegria. Assim o anjo anuncia justamente a alegria à Virgem, dizendo: “Deus te salve”. Segundo outros comentaristas, o anjo testemunha que ela é digna de ser prometida quando diz: “Cheia de graça”. Esta abundância de graças é mostrada ao marido como um dote ou dinheiro, do qual se diz: Estas são da esposa, aquelas são do marido.
Não poderia deixar de mencionar, também, as palavras de Santo Ambrósio, porque o nosso coração necessita verdadeiramente de palavras assertivas e de testemunhas fiéis. O Santo diz: Veja a humildade da Virgem, veja a sua devoção. Ele continua, então: “E Maria disse: Eis a serva do Senhor”. Aquela que é escolhida como Mãe é chamada de serva e não se orgulha de uma promessa tão inesperada. Porque aquela que iria dar à luz aos mansos e aos humildes, deveria ter-se mostrado humilde. Chamando-se também de serva, ela não se apropriou da prerrogativa de tão especial graça, pois fez o que lhe foi ordenado. Portanto segue-se: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Você tem o dom, você vê o voto. “Eis a serva do Senhor”, é a sua disposição de cumprir seu ofício. “Faça-se em mim segundo a tua palavra” é o desejo que ele concebe.
1ª leitura: 2S 7,1-5.8b-12.14a.16
Na primeira leitura encontramos o Rei David indignado porque vive em um palácio, enquanto Deus habita uma tenda. Apesar dos seus pecados, Davi foi o homem que temeu ao Altíssimo, serviu-o o máximo que pôde e fez o máximo para agradar ao seu Deus, por isso é compreensível o desejo de construir um templo para o Senhor. Mas, o autor nos apresenta uma ação de aliança entre o Divino e o humano, que contraria a vontade do rei. O Senhor responde a Davi pela boca do profeta Natã: “Eres tu quem construirá um templo para mim? ” (v. 5). Talvez esta questão nos pareça simples pela forma como nos é apresentada. Achamos que é uma pergunta clara, mas nela se esconde um certo grau de ironia. É como se Deus dissesse: “Tem certeza que pode construir um templo para mim? ” Ou melhor, “Você acredita que eu, o Senhor, preciso de seus favores? ”, porém, a pergunta de Deus não se limita apenas a isso. O seu discurso é um anúncio de bem-aventurança, pois não é David quem vai construir o templo para o Senhor, mas sim o Senhor que vai construir um templo na casa do rei, ou melhor: na sua família. Esta passagem bíblica é o centro de todo o messianismo do Antigo Testamento, contém o que será anunciado pelos profetas e pelos apóstolos. A construção do templo na família de Davi nada mais é do que a promessa de bênção messiânica. De sua família nascerá o Salvador, por isso Deus é quem construirá seu templo na família de Davi.
O versículo 13 diz que não é Davi quem construirá o templo, mas aquele que vem do seu ventre. O versículo parece ter um duplo sentido, pois foi seu filho Salomão quem construiu o templo, porém o autor não poderia ter dito de Salomão, pois no mesmo versículo continua dizendo que seu trono estará será eterno, o que exclui a possibilidade de o profeta estar falando de algum rei, pois se sabe que por volta de 720 a.C. o reino foi dividido entre Roboão e Jeroboão, filhos de Salomão e posteriormente invadido por Babilônia.
Por estas razões, a teologia afirma que aqui está o centro do messianismo, a profecia de Natã refere-se à vinda do Messias, cujo Reino durará para sempre. Não é por acaso que Cristo repete diversas vezes, durante sua vida pública, a expressão “o Reino de Deus chegou entre vós”. O momento em que o Verdadeiro Rei governará o universo. Porém, seu reinado não pode ser confundido com uma instituição, mas sim com uma realidade que ultrapassa o tempo e o espaço, um lugar onde Deus atua à sua maneira, sem limitações humanas. A vinda do Messias é o estabelecimento do Reino de Deus, Nele está a centralidade da história. Em Cristo a Antiga Aliança se renova para sempre.
Salmos: 88,2-3,4-5.27.29
Esta Nova Aliança é o que o salmista proclama, anunciando-a de geração em geração, ou seja, anuncia para sempre a sua “fidelidade”. O texto litúrgico usa o termo fidelidade em vez de ἀλήθεια (verdade), expressando a relação entre Deus e os homens. Deus sempre foi fiel ao seu Povo, porém, o termo verdade nos apresenta a manifestação da Palavra que é a Verdade do Pai. O Filho é a Verdade expressa à humanidade.
Santo Agostinho, na homilia deste salmo, faz uma relação entre misericórdia e verdade. Segundo ele, a intenção do salmista era dizer que a misericórdia e a verdade caminham juntas, pois a Verdade apareceu como manifestação da misericórdia do Deus que quis perdoar os pecados dos homens, que agora se tornam o Povo da Nova Aliança.
A linhagem perpétua é a renovação do Povo eleito de Deus, a sua graça já não é propriedade de um Povo específico, mas em Cristo atinge a plenitude para toda a terra. Cristo é a cabeça, o rei que governa os novos filhos de Deus. Somos, portanto, membros deste corpo comandado por Cristo, mas ao mesmo tempo somos também o mesmo reino, quando nos deixamos guiar por Ele.
2ª leitura: Rm 16,25-27
Todo o Mistério Divino nos é esclarecido nas palavras do Apóstolo Paulo. Cristo é a Palavra, a Verdade, a Misericórdia que foi mantida em segredo durante séculos. Em Cristo toda manifestação divina está unida. Nele está o que os profetas anunciam, o que os apóstolos testificam e o que esperamos.