II Dom do Advento – ano B

João serve de ponte entre a Antiga e a Nova Aliança, anuncia a chegada do Messias e com Ele o novo Povo de Deus.

Mc 1, 1-8

O evangelho deste segundo domingo centra-se em João, o Batista, aquele que precede a chegada do Filho de Deus. João é filho de Zacarias e Isabel, parentes da Virgem Maria. Além de ser da mesma família de Jesus, João é como o fio que liga o Antigo e o Novo Testamento. Considerado o último dos profetas, ele anuncia a chegada do Messias, dizendo: “Atrás de mim vem aquele que pode fazer mais do que eu […] eu vos batizo com água, mas Ele te batizará com o Espírito Santo .”

Este anúncio profético faz parte da intenção do evangelista Marcos, que, segundo João, aponta para trás para que os judeus que o ouvissem recebessem a mensagem evangélica que vem imediatamente depois de João. O evangelista anuncia a chegada do Messias esperado pelos judeus, é como se dissesse: Aqui está o seu Rei! Assim como se acreditou nos profetas, acreditai agora que Jesus é o Messias. Isto explica o jogo de palavras utilizado pelo autor, porque como diz também a primeira leitura “No deserto preparai-lhe o caminho” (Is 40, 3) e Marcos repete “preparai o caminho do Senhor”.

Vejamos o substantivo grego ἔρημος (deserto), que pode ser interpretado, segundo a possibilidade da própria palavra: este deserto como uma pessoa isolada, abandonada, na qual o profeta pede para preparar um ὁδός (caminho). Em seguida, o profeta anuncia que o Messias vem fazer morada nos corações desolados, mas que eles têm a obrigação de criar meios para que Ele chegue e faça morada.

São Jerônimo fala deste caminho, que é a penitência, pelo qual Deus desce até nós e nós ascendemos até ele. Por isso, João Batista convida a preparar o caminho, à penitência. Não é por acaso que a liturgia nos apresenta esta passagem, pois o tempo do Advento também é marcado pela penitência, na Quaresma esperamos o Mistério Pascal, no Advento ansiamos pela Encarnação. O Catecismo (1093-1095) afirma que é o Espírito quem nos prepara para abrir o caminho ao Senhor.

Mas o caminho não é um simples lugar onde há vida, mas sim no deserto, onde parece não haver nada, porém, é um lugar de relacionamento com Deus. No deserto o Senhor interagiu pela primeira vez com o seu povo, este deserto não é apenas o espaço do coração humano, onde Deus vive, mas também, parece verdadeiro afirmar que é a Igreja, o lugar onde Deus se manifesta ele mesmo para as pessoas e nações.

Assim, o Evangelho exprime o sentido eclesiológico da afirmação de João: “Não sou digno de lhe desatar a sandália”, porque como escreve São Gregório (Homilia 7 sobre os Evangelhos): “Era costume entre os antigos que, se alguém não quisesse receber como esposa a que tinha para si por direito de parentesco, aquele que deveria ser seu marido deveria desamarrar-lhe os sapatos, por isso anuncia que é indigno de desamarrar a tira das sandálias dele, como se dissesse abertamente: “Não sou digno.” de descalçar os sapatos do Redentor, porque não usurpo o nome de esposo, que não mereço.

Gregório refere-se à lei do levirato: se um homem morrer sem deixar filhos, seu irmão deverá tomar a mulher como esposa para perpetuar sua geração, mas se ele não quiser tomá-la como esposa, se é tirado sua sandália e cuspido em seu rosto, conforme está escrito em Deuteronômio 5, 7-9. João, ao dizer estas palavras, afirma que não tomará o direito que Jesus tem sobre a sua esposa, a Igreja, pois não é maior que o esposo.

1ª Leitura: Is 40, 1-5. 9-11

A profecia de Isaías começa com um sinal de desastre. O Senhor diz: “Conforta o meu povo”, que se encontra em situações difíceis. Existe um relação íntima entre Deus e o sofredor. A dinâmica da aliança do Antigo Testamento está presente nas palavras do profeta: “Meu povo e teu Deus”. A fidelidade do Altíssimo permanece mesmo depois das traições de Israel. A cruzada pelo deserto indica o caminho que os exilados da Babilônia seguiriam para retornar à sua terra. Porém não fariam o regresso sozinhos, mas com a ajuda de Deus. É por isso que Isaías diz: “elevem-se os vales, nivelem os montes e colinas, endireitem-se os tortuosos e nivelem-se os lugares acidentados”, o que significa que o Altíssimo guiaria seu povo como quem anda por lugares planos. (Is 40:4). O arauto, isto é, aquele que anuncia, sobe para informar a Jerusalém que a salvação está chegando ao seu povo.

“Conforta meu povo” não difere de “Não sou digno de desatar as sandálias”, ambas as expressões têm ligação direta com a Esposa de Cristo, onde Ele permanece presente na história. “Meu Povo” é a expressão usada pelo Sumo Bem para designar o grupo que lhe pertence, de fato, o Bem Supremo nos toma como seus por amor.

Salmos 84, 9 – 14.

O Altíssimo promete salvação ao seu povo. Por fim, «misericórdia e fidelidade encontram-se» (Sl 84, 9), diz o salmista como se quisesse dizer: mesmo que tenhas traído o Senhor, mesmo que tenhas sido infiel, Ele se aproxima com a sua fidelidade e a sua misericórdia, unidos pelo amor pelos homens. Depois de ter encontrado a misericórdia, o homem procura praticar a justiça, porque só assim é possível alcançar a paz.

Santo Agostinho nos Comentários aos salmos diz que a Justiça e a Paz são duas amigas inseparáveis. Todos queremos a paz, mas nem todos querem a justiça, mas como existe uma relação de profunda intimidade entre um e outro, não há como alcançar uma sem praticar a outra.

A justiça é um incômodo para os homens, porque acusa seus erros, diz o que deve ser feito, ensina uma moral que nem todos estão disponíveis para seguir, mas se for ignorada, a paz não se alcança. Deus é sinal de justiça e olha para os homens que foram salvos pela Verdade que brota da terraoutrao o Deus que se encarnou como homem. Ou talvez possamos pensar no Cristo que brota no coração dos homens, como esta verdade que brota da terra da qual o homem foi feito. Deus, na sua misericórdia, olha do céu para o homem pecador e concede-lhe a Verdade no seu coração. O reconhecimento do pecado clama por justiça celestial. Portanto façam o que João diz, preparem o caminho do Senhor, principalmente em seus corações, arrependam-se para que ele possa fazer germinar os frutos divinos.

2ª Leitura: 2 Pe 3, 8-14

Remete-nos ao Evangelho do domingo passado, mas com mais força e distinção de linguagem. Marcos usou a figura do porteiro que guardava a casa do seu senhor, enquanto Pedro usou a figura do ladrão para dizer que o dia do Senhor chegará sem que ninguém espere. Se nos inserirmos no pensamento dos primeiros cristãos, compreenderemos perfeitamente o que diz São Pedro. Para as primeiras comunidades, a segunda vinda do Senhor não demoraria muito, mas Ele voltaria em breve, naquele momento. É necessário que os discípulos consolem o coração dos fiéis, pois a promessa de Cristo parece impossível, porém, Pedro usa o mesmo discurso do povo de Israel: o Senhor é paciente com o seu povo, a sua demora em voltar é baseada no amor, para que não se percam, leva tempo para que haja tempo de conversão.

Mas, a vinda repentina de Cristo pode acontecer de outra forma, que não a descida gloriosa no julgamento final. O Senhor também chega a cada um de maneira particular, subitamente com a morte. A morte do homem é a segunda vinda particular do Senhor, o momento onde quem morre tem um encontro privado com Deus, por isso devemos estar sempre alertas, porque a morte pode ocorrer em algumas semanas, em alguns dias, até em um algumas horas. É útil que os cristãos reflitam constantemente sobre a morte, para que meditando sobre ela procuremos estar prontos e não sejamos apanhados de surpresa.

Pois, como diz Francisco de Assis, “bem-aventurado aquele que a encontra (a morte) na graça, porque a segunda morte não lhe fará mal”, ou seja, as duas mortes trazem os justos à vida, a primeira morte para o mundo, que se dá no batismo e o segundo leva à vida eterna.

Conclusão

É necessário, portanto, que preparemos o nosso coração, com atitudes de justiça e de paz, lembrando sempre a aliança feita com Deus, para que quando chegar o momento do encontro estejamos em plena comunhão com Ele e com a Sua Esposa, a Santa Igreja.

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