
Nas leituras desta solenidade, se nota que as graças concedidas a Virgem Maria manifestam a gloria de Deus, por sua obediência ela recebeu graças recusadas pela desobediência de Eva.
Lucas 1, 26-38
Nesta Solenidade da Imaculada Conceição de Maria celebramos, antes de tudo, a Encarnação do Verbo no ventre da Virgem. O que é oferecido a Maria é feito em virtude de seu Filho. Cristo é o centro da história e, portanto, é a centralidade na vida de sua mãe, preservada do pecado na sua própria concepção, ou seja, ela é modelo de criatura. Quando olhamos para Maria, olhamos para a humanidade perfeita e, como toda perfeição, aponta para Cristo, Deus e homem que, por sua vez, convida ao amor ao Pai.
Onde estamos nós neste mistério salvador? Exatamente sentado à mesa, disponível para receber o banquete das mãos do Deus que se humilhou. O que parece estranho ao homem, aconteceu verdadeiramente em virtude dele. O Deus Trindade se move em direção à humanidade. A máxima teológica que afirma que “quando Deus age, atua sempre na Trindade” não se torna tão expressiva como neste Mistério da Encarnação, projetado antes do início do mundo.
O Pai envia o Filho e o Espírito. A terceira pessoa da Trindade age sobre a Virgem como diz o Evangelho “O Espírito Santo virá sobre ti” para torná-la apta a receber o Filho em seu ventre, pois nenhuma criatura tem em si a capacidade de gerar Deus. Maria é verdadeiramente mulher, mas separada para a verdadeira liberdade. Somente por um ato livre se pode receber Deus perfeitamente. Em sua concepção imaculada, Deus não a criou divinizada, a tornou perfeitamente humana, capaz de se irar insuportavelmente contra o mal e de desejar ardentemente o bem. Neste sentido, a Virgem não tem outra opção senão dizer “Faça-se em mim segundo a tua vontade”, pois o seu desejo estava em sintonia com o desejo de Deus, sempre inclinado ao bem.
Deus poderia ter aparecido e não encarnado, poderia ter procurado outros meios de se fazer carne, mas o fez através da Virgem, talvez para apresentar um esquema de hierarquia de perfeição.
Se o próprio homem não pode ser bom, isto é, se se reconhece incapaz de se divinizar, então o Pai envia o seu Filho para lhe ensinar a possibilidade de se tornar Deus. Mas se ainda assim parece difícil ao homem, visto que Cristo não poderia, por sua própria natureza, não ser bom. Então, interveio na Virgem Maria, criando-a sem pecado, como outrora criara Adão e Eva. Nesse sentido, a criatura imaculada, não é inteiramente novidade, a diferença entre a primeira Eva e a segunda está na obediência que recobra toda a plenitude da graça, que aos homens é distribuída por medidas, como diz São Jerônimo. Na Virgem Maria, quem criou a natureza supera o que é natural.
São João Crisóstomo diz em sua Homilia sobre o Gênesis: Não se concentre na ordem natural quando se trata de coisas que transcendem e ultrapassam a ordem da natureza. Maria diz: “Como isso será feito, já que não conheço homem algum? ” Pois bem, pela mesma razão de não conhecer um homem, porque se ela conhecesse um homem, não seria considerada digna deste mistério. Não porque o casamento seja ruim, mas porque a virgindade é mais perfeita. Era apropriado, portanto, que o Senhor de todos participasse conosco do nascimento e se distinguisse nele. O que era comum entre nós era nascer do ventre de uma mulher e ele nos superou ao nascer sem que ela estivesse unida a um homem.
E São Gregório de Nissa en Orat in deam nat Christi: O verdadeiro Legislador fabricou mais uma vez da nossa terra as tábuas da natureza que a culpa quebrou, criando – sem união carnal – o corpo que leva a sua divindade e que esculpe o dedo divino, nomeadamente, o Espírito Santo vindo sobre a Virgem.
1ª Leitura: Gn 3,9-15.20
O que se diz de Maria, encontramos prefigurado no Antigo Testamento, sobretudo, precisamente na primeira leitura desta Solenidade. Santo Irineu de Lyon na sua teoria da Recapitulação apresenta a necessidade de recapitular o homem também através de uma nova Eva. Cristo é o novo Adão e Maria é a nova Eva que, também virgem, prometida em casamento a um homem, dialoga com o Anjo. A primeira, com o anjo rebelde, a segunda com o Mensageiro do Senhor. Eva, através da sua desobediência, trouxe a morte ao mundo e Maria, através da sua obediência, trouxe vida em seu ventre.
Salmo 97, 1.2-3ab.3c-4
Através dela o Senhor fez maravilhas e o salmista canta um novo cântico. É através de Maria que o Senhor manifesta a sua glória no mundo, a sua vitória contra a morte e a sua misericórdia para com os homens. Em todo o mundo, nos confins da terra, é contemplada a vitória que nosso Deus alcançou depois de encarnar no ventre da Virgem.
2ª Leitura: Ef 1, 3-6. 11-12
O homem, como dito, continua sendo o convidado de honra, para quem tudo foi feito. Não é desvinculado, mas é a razão de tudo, porque Deus tem um carinho inegável por nós. Tanto carinho que é impossível a ele não nos amar. Não é por acaso que ele nos presenteou com seu Filho e através dele nos foi oferecido todo tipo de bens espirituais e celestiais, ou seja, bens para a vida terrena e celestial, bens materiais e espirituais já preparados desde o início do mundo. Deus já havia preparado tudo com antecedência, pois conhecia a importância dos que viriam no futuro. Todo o universo se curva diante do homem, porque Deus assim o quis, e o homem que reconhece esta dinâmica de vida se curva diante de Deus. No centro do universo está o homem e no centro do homem está Deus. Por tanto amor pelos homens, Ele preparou a Virgem para enviar seu Filho para que nele pudéssemos ser filhos.
A colaboração do beato Duns Scotus para o dogma
O dogma declarado em 8 de dezembro de 1854 teve um longo percurso teológico. Muitos teólogos se opuseram à ideia da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Santos como Tomás de Aquino e Boaventura consideraram a virgindade e a santidade de Maria somente após a sua concepção, dado este é um facto que a Encarnação do Verbo exige. Porém, não conseguiram apresentar ideias para definir que Maria havia sido preservada do pecado desde a sua concepção. O grande defensor da Imaculada Conceição de Maria foi o frade João Duns Scotus. Este franciscano defende que Maria foi concebida sem pecado, inclusive sendo filha de Adão. Para ele, o pecado original não consiste em acrescentar algo ao homem, mas sim na perda do direito a uma graça. O pecado original é na verdade a perda de um dom divino, devido ao pecado de Adão. Não se trata, portanto, de uma herança física, razão pela qual não é necessariamente transmitida. A graça que Adão perdeu, Maria recebeu.
Há ainda um problema teológico relativo à Redenção universal de Cristo, que Duns Scotus consegue resolver. Segundo teólogos contrários à concepção imaculada da Virgem, Maria deveria ter sido concebida com o pecado original para que também ela pudesse ser redimida, pois basta uma única criatura não redimida para anular a universalidade da remissão. A resposta de Duns Scotus se desenvolve segundo um duplo modo de remissão, uma após o ato e outra como prevenção. Maria foi protegida do pecado, e assim deveria ser, pois a forma mais perfeita de redimir é protegendo antes da ação. Assim, o dogma da Imaculada Conceição de Maria começa a ser traçado com mais clareza, até chegar à sua declaração oficial.