I Dom do Advento – Ano B

A chave para compreender a Liturgia da Palavra deste Primeiro Domingo do Advento é o caminhar vigilante. Na primeira leitura os homens não seguem o caminho, o salmo apresenta José como uma figura conduzida ao longo do caminho, na segunda leitura os cristãos se enriquecem porque seguem a Cristo e no Evangelho encontramos o porteiro que vigia para proteger o lar.

Evangelho: Mc 13, 33-37

O ano litúrgico, como se sabe, começa no primeiro domingo do Advento. O Evangelho deste dia, embora seja curto e pareça pequeno para uma data tão importante, possui a mensagem exata a ser transmitida aos nossos corações. Seu ponto central está no imperativo dito por Jesus. “Vigiai!” Vigiai, pois não sabeis a hora em que chegará o dono da casa, em que cada um de nós é chamado a cuidar. Ou melhor, para cuidar de si mesmo. Pois bem, vigilai, refere-se a nós mesmos, o porteiro, a quem o dono confiou o cuidado da sua casa, morada de Deus. É necessário que guardemos a nossa vida, para que não deixemos entrar o que é estranho à nossa própria natureza, nem permitamos que o que lhe é próprio seja retirado de dentro desta casa, ou seja, da sua própria essência, para que, na chegada o proprietário possa encontrar exatamente como deixou, como criou. Qual é o melhor conceito de santidade senão o de ser o que se é? Ser o que Deus sonhou para cada um. É preciso ter o coração sempre pronto para a vinda indefinida de Cristo, com a certeza de que ele virá. Porque de fato o Senhor virá para cada um de nós, alguns para a felicidade eterna e outros para a morte eterna. Mas não há dúvida de que isso acontecerá.

Talvez o mito de Penélope e Ulisses nos permita fazer uma reflexão ligada ao que foi pretendido por este homem que faz uma longa viagem. Ulisses havia deixado Ítaca para guerrear, enquanto sua esposa fugia do assédio de seus pretendentes, que acreditavam que Ulisses havia morrido. Mas como Penélope sabia que não poderia ficar sem marido na sociedade, teve a brilhante ideia de anunciar que se casaria, porém, não antes de tecer um sudário. Assim, durante o dia ela começou a tecer e à noite desfiar. Depois de 20 anos, Ulisses voltou e pôde ficar com a esposa que o esperava.

São Gregório Magno acrescenta uma profunda reflexão a esta passagem do Evangelho na sua Homilia in Evangelia. O homem que faz uma longa viagem é o mesmo Cristo que subiu ao céu, que deu autoridade a todos os seus servos para que pudessem cuidar da casa, com a ajuda do Espírito. Ao porteiro, o santo se refere aos pastores encarregados de cuidar das ovelhas e também ao próprio coração, que deve estar sempre em guarda.

Santo Agostinho acrescenta à reflexão deste Evangelho, colocando sobretudo a ênfase nas últimas palavras de Jesus “o que vos digo, digo a todos”. A intenção do Messias nada mais é do que apresentar a universalidade do seu imperativo. “Vigiai todos vós”, os de agora e todos os outros a quem chegará a mensagem salvadora. A boa notícia que virá novamente, aquele que encarnou no ventre da Virgem.

O Catecismo da Igreja (2742) também nos diz claramente o que Jesus pretendia quando disse “Vigiai”. E podemos vivê-lo na nossa experiência pessoal de oração. Esteja vigilante, então, para perseverar numa relação de amor com Deus, orando sem cessar.

1ª Leitura: Is 63, 16b-17; 64, 1.2b-7

A vigilância que João proclama foi exactamente o oposto daquilo que o povo de Israel praticou na narrativa da primeira leitura. João diz “preparem o caminho”, enquanto as pessoas de coração duro não acreditaram na verdade do caminho do Senhor. A dureza de coração é sinal de um homem teimoso, que não muda de ideia, mesmo que lhe seja apresentado um caminho diferente. O homem de coração duro está fechado para a chegada do Senhor. Embora saiba disso, ele gradualmente o rejeita na mesma medida em que se arrepende e clama por perdão, dizendo “estávamos todos impuros, a nossa justiça era um pano manchado” (Is 64,5) e então reconhece a grandeza de Deus “ tu és nosso Pai. Nós somos o barro e tu o oleiro: todos nós somos obra das tuas mãos” (Is 64,7). O pecador reconhece que o Senhor corre ao encontro daqueles que estão nos seus caminhos e se indigna com aqueles que fogem Dele (cf. Is 64, 4).

Salmos: 79, 2ac.3b. 15-16. 18-19

O Senhor sempre se lembra de José e o conduz como um rebanho, como começa o Salmo 79 (Vulgata), é o próprio Deus quem conduz o homem em seu caminho, que é Cristo. Não pode ser que exista outra forma de bem além dessa, já que Deus, sendo o Supremo Bem, o Altíssimo e Onipotente bom Senhor de quem a Palavra foi gerada, mas que na época dos escritos dos Salmos não se deu a conhecer plenamente, por isso é apresentado como a vinha plantada à direita do Pai (cf. Sl 79,16). Esta vinha é o mesmo Cristo que está sentado à direita de Deus, para onde o Pai desde o princípio do mundo conduz os homens a Si. Ele conduziu José, conduziu os apóstolos e nos conduz através do Espírito. Bem, na verdade, toda ação divina é ação trinitária. O caminho é o Filho, gerado de Deus, pelo qual o Espírito conduz os homens.

Santo Agostinho nos seus Comentários aos Salmos diz que José é o homem de coração desafiador, ao contrário dos homens de coração duro da primeira leitura. Seu nome significa “aumento” e representa o grão que cresce e dá frutos, como os povos das 12 tribos. José é também figura de Cristo no Antigo Testamento, pois foi vendido pelos irmãos e injuriado, mas exaltado pelos estrangeiros, como a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular (cf. Mt 12, 42).

2ª leitura: 1Cor 1,3-9

Paulo em sua primeira carta aos Coríntios nos remete à realidade das pessoas que vivem no caminho do Senhor, ou seja, vivem no próprio Cristo. Através do seu Filho, Deus enriquece o seu povo com dons especiais e sobretudo com o conhecimento da verdade, possível quando se caminha com, através e em Cristo. O testemunho dos fiéis colabora para a glória de Deus. Quem se deixa conduzir como ovelhas só precisa esperar o Dia do Senhor, o dia da plena comunhão dos santos.

Conclusão

Nos nossos dias, a humanidade que tem o coração duro é igual àquela que tem ideais líquidos, tudo é imediato, fraco e sem consistência. Zygmunt Bauman teria razão ao apresentar a Modernidade como líquida, onde tudo se desmorona na mesma velocidade com que é feito. Hoje o homem pertence a Deus, amanhã já não pertence. Num certo grupo o homem é fervorosamente religioso, no outro torna-se até inimigo da religião. Temos muita pressa em pavimentar o caminho do Senhor, mas ainda mais cedo desistimos. Talvez nos falte amor para quando o dono da casa chegar

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